Mostrando postagens com marcador caridade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador caridade. Mostrar todas as postagens

16 de jun. de 2016

E para você o que é uma vida feliz?

 Paulo Eduardo Roque Cardoso - Monsenhor João Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho
    Está em nossa natureza o desejo da felicidade. Sempre estamos, explicita ou implicitamente,
buscando-a de alguma forma. Basta ser humano para se querer este ideal. E, certamente, quem a encontrou pode dizer que fez o grande negócio de sua vida, ou então, que ganhou a vida.
    Ora, mas quando é que se ganha a vida? Paulo Eduardo Roque Cardoso
    Muitos dirão: Ah! Tendo muito dinheiro!
    Mas se pararmos para analisar aqueles que tiveram ou têm excelente situação econômica, poderíamos nos perguntar: todos eles foram ou são felizes? Muitos de nós, talvez, poderemos responder pela experiência da vida: não! Seja por casos de doença (como dizem: dinheiro não compra saúde), por problemas de relacionamento, seja o que for, o dinheiro não traz o que a vida não proporcionou, não se terá assim a felicidade completa.
      Alguém ainda poderia dizer: a felicidade está no prestígio, em ser aplaudido e ser bem visto. No entanto, quantos foram aqueles que num momento eram elogiados e ovacionados e, com o passar do tempo, foram desprezados ou esquecidos. Há casos também de pessoas muito aplaudidas pela sociedade, mas que por algum problema pessoal carregam grandes amarguras, muito bem dissimuladas perante o público, mas que algumas vezes acabam vindo à luz em desfechos trágicos.
       Bem, mas alguém também poderá dizer: pelo menos alcançam felicidade aqueles que têm os prazeres da vida. Aqui talvez seja mais evidente o desmentido da realidade. Vivenciamos um período histórico no qual uma “famosa” doença atinge a um número crescente de pessoas das mais variadas idades, entre essas, muitas emblemáticas e gozadoras da vida, que após seus momentos de euforia, na intimidade, têm como indesejável companheira a depressão.
       Mas então, como encontrar a felicidade?
        Busquemos na sabedoria da Igreja, “tão antiga e tão nova” – adaptando os dizeres de Santo Agostinho – as luzes do Evangelho que possam iluminar as vias que nos conduzirão a uma felicidade especial, incomparável, que“nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não assaltam nem roubam” (Mt 6, 20).         
Uma leitura cuidadosa do Evangelho de São Lucas mostrará um trecho luminoso a este respeito. Eis que, na contramão da avareza, das honras e prazeres mundanos, deparamo-nos com os versículos 23-24, contemplados no XII Domingo do Tempo Comum, em que Nosso Senhor diz:
         “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9, 23). Seguí-Lo para onde? Onde está Jesus? Ele se encontra agora “sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso” (1), em seu trono de glória, gozando da maior e mais perfeita felicidade, tão grande que não podemos concebê-la: a felicidade eterna! E continua:
         “Pois quem quiser ganhar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 24).
         Portanto, atendamos ao convite de Nosso Senhor. Comentava estas divinas palavras, Mons. João Clá Dias: “[…] podemos ressaltar que, ‘ganhar a vida’ significa também ter uma existência pautada pelos Mandamentos, visando como objetivo a santidade. Em nossa época, na qual os homens pagam qualquer tributo para trilhar uma carreira brilhante e construir um nome de prestígio, lucraria muito quem meditasse nessa passagem […]”
Então caro leitor, se nós queremos “ganhar a vida” e, veja bem, nos dois sentidos da expressão, ou seja, alcançarmos a felicidade possível nesta terra e a eterna no Céu, sigamos o maravilhoso conselho, que vem acompanhado de uma promessa infalível, não feita por qualquer homem, mas pelo próprio Homem-Deus:
         “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentada” (Mt. 6, 33).
E assim teremos ganho, como Ele, a vida. Roguemos à Nossa Senhora a graça de seguirmos a Nosso Senhor,  nas vias da santidade, dos Mandamentos, alcançando a verdadeira felicidade.
Adilson Costa da Costa

(1) Catecismo da Igreja Católica. Artigo 6. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 1999, p. 189.
(2) Mons. João S. Clá Dias, EP. O inédito sobre os Evangelhos. v. VI, Coedição internacional de Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana e São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012, p. 173-174.

6 de jun. de 2016

A inveja nas Sagradas Escrituras

Nas Sagradas Escrituras, são numerosas as referências sobre o vício da inveja. No livro dos Provérbios, ela é considerada como "a cárie dos ossos" (Prov. 14, 30) e São Paulo a enumera entre os pecados que nos fazem perder o Reino dos céus (Gl, 5, 21).
Foi por inveja que os irmãos de José resolveram vendê-lo como escravo aos egípcios (Gn. 37,11). Também Saul, ao ver que Davi vencera o gigante Golias, encheu-se de inveja contra ele e por diversas vezes tentou matá-lo (I Sam. 18:6-8).
Já São Mateus nos narra que até mesmo Pilatos reconheceu que foi por inveja que os fariseus entregaram Cristo para ser morto: "Estando o povo reunido, perguntou-lhe Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?São Tomás de Aquino.jpgPois sabia que por inveja o haviam entregado"(Mt 27, 18).
Etimologia da palavra "inveja"
Etimologicamente, a palavra "inveja" é composta pelo verbo latino videre (ver) e da partícula in, que indica privação. Desta forma, invidere significa olhar com maus olhos, projetar sobre o outro um olhar malicioso. Daí a origem do famoso trocadilho de Santo Agostinho: "Video, sed non invideo" [1], ou seja, "vejo, mas não invejo."
As definições sobre a natureza da inveja ao longo dos séculos concordam notavelmente entre si. Na tradição aristotélica ela é considerada como uma dor causada pela boa fortuna que goza alguns de nossos semelhantes. Paulo Eduardo Roque Cardoso
Para São Tomás de Aquino, a inveja se caracteriza por uma "tristeza do bem alheio, enquanto se considera como mal próprio, porque diminui a própria glória ou excelência." [2]
A inveja é também entendida como uma paixão que é ao mesmo tempo filha do orgulho e da malquerença, em que se misturam o ódio e o desgosto provocado pela felicidade de outrem.
É por este motivo que os invejosos estão condenados a sofrer continuamente, pois o ódio provocado pela ira facilmente se apazigua mediante a reparação, mas aquele nascido da inveja não se amansa nem admite reparações. Mais ainda, irrita-se com os benefícios recebidos.
Seu âmbito de ação parece não conhecer limites, pois até mesmo no céu ela se fez presente, quando os anjos maus invejaram a glória que Deus havia reservado aos homens.[3] Granada a considera como um dos pecados mais estendidos, pois a inveja a impera em todo o mundo e mora especialmente nas cortes e palácios, nas casas dos senhores e príncipes, nas universidades e cabidos e ainda, nos conventos de religiosos. Seu objetivo e meta é perseguir aos bons e aos que por suas virtudes são altamente apreciados.[4]
Por Diácono Inácio de Araújo Almeida
[1] Santo Agostinho: In Evangelium Ioannis Tractatus 44, 11.
[2] São Tomás de Aquino. Suma Teológica: II-II, q. 36, a. 1.
[3] Caremo, Girolamo. Istruzioni Pratiche intorno ad alcuni Doveri Generali e particulari del Cristiano. 2a ed. Gaetano Motta: Milano, 1822, p. 332.
[4] Granada Luis de. Obras de V. P. M. Fray Luis de Granada. Tomo I. La Publicidad: Madrid, 1848, p.132.

4 de jun. de 2016

A tentação da “limbolatria”

"Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: ‘Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo'. Jesus respondeu: ‘Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?'. E disse-lhes: ‘Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens'. E contou-lhes uma parábola: ‘A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. Então resolveu: ‘Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!'. Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?'. Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus'" (Lc 12, 13-21).
Diante dos prazeres, até legítimos, que a vida nesta Terra pode oferecer, facilmente o homem se esquece da eternidade para a qual foi criado.
Monsenhor Joao Cla Dias_EP.jpgMons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I - A vocação trocada por uma fechadura...
Conta-se que certa vez um monge acabou por abandonar sua vocação em troca de uma mera bagatela. Havia ele trabalhado durante anos como exímio ferreiro e, em determinado momento, sentira em seu interior um forte impulso para seguir as vias da vida contemplativa. Deixando tudo, dirigiu-se a um mosteiro, onde foi admitido.
Passado algum tempo, foi-lhe destinada uma cela cuja porta rangia e batia sem cessar dia e noite, pois não se fechava bem. Querendo resolver o problema, nosso monge pediu licença ao superior e fabricou uma magnífica fechadura. Além disso, aproveitou para consertar a própria porta, ajustando-a melhor ao marco da parede. Afinal, conseguiu transformá-la numa peça modelar para toda a comunidade.
Encantado com seu próprio labor, passeava pelos corredores do edifício, admirado por não achar nenhuma fechadura comparável à dele, tão perfeita e bem acabada. Entretanto, com o correr dos meses, foi criando dentro de si um apego excessivo pelo acessório, aparentemente inofensivo.

Certo dia ordenou o abade uma mudança de celas na comunidade. Acabrunhado pela perspectiva de ver-se obrigado a repetir o minucioso trabalho em seu novo destino, o monge-ferreiro pediu permissão para levar consigo a fechadura. Mas, por determinação do superior, ninguém dispunha de autorização para transladar alguma parte do mobiliário na mudança de uma cela para outra. Descontente com a deliberação do prior e não estando disposto a renunciar à sua excelente fechadura, o monge arrancou-a da porta e decidiu abandonar a vocação religiosa, recebida das mãos de Deus, portando consigo o objeto de seu apego e embrenhando-se nos caminhos do mundo...
O que está por detrás da história da fechadura desse monge? É o que nos ensina o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum.
II - O perigo da ganância
O episódio narrado neste Evangelho se passa quando Jesus e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém, cidade onde Ele iria consumar sua missão divina. Anteriormente, por duas vezes, já havia predito a Paixão (cf. Lc 9, 22.44). Contudo, os discípulos não entendiam o elevado significado de tal anúncio e ainda tinham a esperança de serem os primeiros no suposto Reino Messiânico a ser fundado por Cristo neste mundo (cf. Lc 9, 45-46). Para corrigir essa visualização humana, Ele os enviara em missão, dando-lhes poder para expulsar os demônios, e lhes ensinara o Pai Nosso, incitando-os à perseverança e confiança na oração (cf. Lc 10, 1.17; 11, 1-4). Foi em meio às atividades desse ministério tão sobrenatural que foi feito ao Mestre este singular pedido.
"Naquele tempo, 13 alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: ‘Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo'".
As palavras iniciais do trecho evangélico contemplado deixam-nos patente a inteira disposição de Nosso Senhor de atender todas as pessoas ao seu redor. Mantendo o livre acesso a Si, sem intermediário algum, encontrava-Se sempre pronto a responder às necessidades dos que d'Ele se aproximavam. Só este minúsculo pormenor já seria suficiente para encher-nos de confiança.
De fato, a cena narrada apresenta-nos o caso de uma pessoa que se dirigiu a Jesus para pedir ajuda. Trata-se, sem dúvida, de um irmão mais novo enfrentando dificuldades na partilha de uma herança que lhe cabia. Pela lei civil judaica, quando dois irmãos herdavam do pai um legado, este deveria ser dividido em três partes, ficando duas para o mais velho e tão somente uma para o outro (cf. Dt 21, 17).1 Dado o caráter ganancioso do ser humano, apesar da lei, esse preceito não deixava de motivar frequentes discussões no momento de sua aplicação. Era comum tais contendas terminarem diante de um juiz, de um rabino ou de outro árbitro apropriado. Segundo comenta Lagrange, "os rabinos haviam habituado os judeus a recorrerem a eles para fechar as questões que deviam mais ou menos ser resolvidas de acordo com os princípios do direito".2
Um defeito comum a todas as eras
O contendor do Evangelho, ao se aproximar de Nosso Senhor pedindo-Lhe a intervenção na divisão de seus bens de família, nem parece ter-se detido um pouco para refletir a respeito da grandeza do Mestre diante da qual se encontrava, considerando-O apenas como alguém com enorme popularidade, como um advogado seguro para a causa que anelava ganhar para si. Bem podemos imaginá- lo sofrendo a perda do progenitor já na idade madura. A juventude ficara para trás e ele desejava garantir o futuro, preocupação muitas vezes dominante na pessoa que avança em anos.3 Essa é a mentalidade dos que, em tal etapa da vida, perdem o senso da generosidade e a capacidade de compreender o caráter transitório das posses temporais. E o irmão mais novo do Evangelho está com os olhos fixos em seu futuro, naquilo que poderíamos definir - apesar de paradoxal - como a perpetuidade desta Terra.
moedas.jpg
Moedas de ouro da época do Império 
 Museu de Valores do Banco Central do Brasil, Brasília
Desde o primeiro momento da saída de Adão e Eva do Paraíso Terrestre, a natureza humana passou a procurar o fruto da árvore da vida no exílio, na pátria terrena. Também em nossos dias, e com mais intensidade do que em épocas anteriores, existe um forte anseio de encontrar, através da medicina, uma "ampola da vida eterna", para tentar-se viver em um limbo permanente neste mundo. Essa atitude é muito comum e - segundo expressão usada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira - poder-se-ia denominar "limbolatria",4 termo que bem designa a posição dos adoradores de uma existência feliz em um limbo sem fim, numa contínua fruição de prazeres aqui neste mundo, esquecendo-se da verdadeira eternidade e do sobrenatural. Diante de tal concepção da vida, involucrada no pedido relatado no Evangelho, vejamos qual foi a resposta do Divino Redentor.
A missão de Nosso Senhor não era temporal
14 "Jesus respondeu: ‘Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?'".
Não consta haver no Evangelho nenhuma negação clara e explícita de Jesus a qualquer pedido, sobretudo se feito com sincera humildade de coração. No entanto, no caso desse homem, Ele recusa pronunciar-se sobre o assunto, por não ser essa sua missão. Competia-a, sim, aos juízes e rabinos, os quais tinham por direito tal responsabilidade. Segundo comenta Santo Ambrósio, "aquele que tinha descido por razões divinas, com toda a justiça rejeita as terrenas, e não se digna fazer-se juiz de pleitos nem repartidor de heranças terrenas, pois a Ele cabia julgar e decidir sobre os méritos dos vivos e dos mortos".5
Esses primeiros versículos são suficientes para deles tirarmos uma bela lição. A reação de Cristo nos mostra que quando alguém deseja um bem apenas para si, Deus se afasta. Zeloso, porém, pela eterna salvação de todos, quis apresentar àquele homem um novo ensinamento: o perigo de se deixar envolver de modo desequilibrado pelas questões de uma herança familiar. "Pedia o demandante a metade da herança" - afirma Santo Agostinho -, "pedia a metade de uma herança da Terra, e o Senhor lha ofereceu toda inteira no Céu: dava-lhe mais do que pedia".6 Isso acontecera pelo fato de estar aquele homem voltado para os bens visíveis com uma volúpia incomum, querendo tê-los, de qualquer forma, em suas mãos.
O que é a ganância?
15 "E disse-lhes: ‘Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens'".
Em primeiro lugar, é surpreendente ver Nosso Senhor fazendo uso da palavra atenção, para mostrar a importância capital da frase que ia proclamar. Ora, nesse versículo, devemos levar em conta que quando Jesus fala em "todo tipo de ganância" está querendo dizer que não devemos estar fixados desequilibradamente na questão do dinheiro. Mas não só. Com efeito, se dissesse somente "com a ganância", poderia significar tão só o dinheiro. Havendo dito "contra todo tipo de ganância", poderia ou não estar se referindo a ele, abarcando, portanto, outros bens materiais.
Se desejamos algo para nossa estabilidade ou bem pessoal, divorciado do amor a Deus e ambicionado com sofreguidão, isto se chama ganância! Ensina-nos o Doutor Angélico que o pecado da ganância se efetua "quando se almeja adquirir e ajuntar riquezas ultrapassando a devida moderação. Isto é próprio da avareza, a qual se define como sendo um desejo desmedido de possuir".7 Voltando, então, à história do infeliz monge-ferreiro, cabe perguntar: como é possível a vida de um homem se resumir no amor a uma fechadura?
Sejamos honestos e olhemos bem de frente o amplo campo de bens ao nosso redor. São João da Cruz os define com precisão: "entendemos por bens temporais riquezas, estados, ofícios e outras pretensões, e ainda filhos, parentes, casamento, etc.".8 Esses bens poderão consistir até mesmo em uma fechadura, um bichinho ou um objeto ao qual nos apegamos em excesso ou de modo desequilibrado, embora nos afaste de Deus.
No entanto, existem outras espécies de ganância como a do sentimentalismo e do romantismo, que nos obrigam a pôr Deus de lado para adorarmos o que é meramente humano. Quando alguém entrega seu coração à ganância dessa consideração e adoração dos outros - e esta é a essência do romantismo -, sempre quererá mais, vivendo em contínua inquietação. Ainda outro tipo de ganância é a vaidade, que leva ao desejo de chamar a atenção sobre si, seja pela beleza física, causando cuidado excessivo da própria aparência, seja por achar-se possuidor de uma grande inteligência ou dotado de outras qualidades. Ganância podemos ter inclusive em relação à saúde, tomando cuidados desproporcionais
e exclusivos em relação ao corpo e ao tratamento das doenças.
O apego pode se concentrar em poucos bens
Nosso Senhor fala em "abundância de bens". Todavia, é preciso ter presente que se nos encontramos em uma situação de escassez material, de dinheiro ou de bens de outra índole, isto não significaria estarmos livres do risco de apego a alguma coisa, como mostra o conto sobre o monge e a fechadura.
campo de trigo.jpg
Campos de trigo prontos para a colheita (Paraguai)
Nesse sentido, continuando sua análise, São João da Cruz comenta como, de fato, é terrível a afeição desregrada à abastança material, mas explica que se uma pessoa tem muitos bens, o apreço dela se dividirá por todos eles. Será o caso, por exemplo, de um possuidor de mil moedas de ouro. Se vier a perder uma só, ficando com novecentos e noventa e nove, o abalo não será tão grande. Porém, se perder novecentos e noventa e nove, todo o seu cuidado pelas mil moedas se concentrará na que lhe restou. Dessa forma, quem tem poucos bens pode lhes ter um apego tão intenso como o de um nababo por toda a sua fortuna, esquecendo-se, por causa disso, de Deus.
É indispensável, contudo, ressaltar um matiz importante. Jesus não está condenando, nesta parábola, a posse de bens, nem o princípio de propriedade, mas sim a ganância, ou seja, o desregramento na consideração dos bens temporais. 9
Um homem abençoado por Deus
16 "E contou-lhes uma parábola: ‘A terra de um homem rico deu uma grande colheita'".
O Divino Mestre frisa, já no princípio, a fortuna desse homem da parábola. Era rico, bem estabelecido e atendido com largueza em todas as suas necessidades. De fato, a pecuária e a agricultura eram as principais fontes de riqueza na Palestina daquele tempo. E ele estava, pois, lucrando, porque a generosidade de Deus lhe havia proporcionado a alegria de viver na abundância. Tanto tinha sido favorecido, que sua terra lhe dera uma grande colheita e, segundo podemos supor pela continuação da narrativa, com um resultado muito superior ao normal.
Ora, essa terra, a quem pertence? Sem dúvida é propriedade do agricultor, mas quem a criou? Quem a fez produzir frutos? É certo que foi a semente, entretanto... quem engendrou a semente? E se formos mais adiante, chegaremos à conclusão de que, no fundo, tudo é de Deus e só a Ele pertence! "De Deus procedem todos esses benefícios, a boa terra, a boa temperatura do céu, a abundância de sementes, a ajuda dos bois  e de tudo o que a agricultura necessita para produzir com abundância. E o que descobrimos nesse homem?". 10 Descobrimos que, diante de tal bondade da Providência Divina, sua reação não foi de reciprocidade.
Egoísmo e ganância sempre vão de mãos dadas
17 "Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. 18 Então resolveu: ‘Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19 Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!'".
A atitude inicial do proprietário é a daquele que, de repente, se depara com uma situação de fartura inesperada. "Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita!". Lamentável foi a intenção, cheia de egoísmo, subjacente a este seu primeiro pensamento. Ao encontrar os campos floridos e prontos para deles tirar o rendimento de uma safra como jamais lograra imaginar, o homem sentiu efervescer em si o elixir da "limbolatria", isto é, o desejo de permanecer nesta Terra por toda a eternidade, sem infortúnios, como demonstram as palavras do versículo seguinte.
Deus desapareceu de seus planos, e quando isso acontece, entra o desastre. Como efeito, quando O retiramos do centro de nossas preocupações, nossa própria pessoa assume com rapidez o papel principal de nossa vida, pois para nós só existem dois amores: ou amamos a Deus até o esquecimento de nós mesmos, ou amamos a nós mesmos até o esquecimento de Deus.11
O personagem da parábola quer guardar o produto da boa colheita de modo exclusivo para sua satisfação. Conforme advertia Nosso Senhor pouco antes, ele é ganancioso e avarento; deseja tudo para si e só para si! Partindo de um princípio errado - o da egolatria -, nem sequer se lembra de fazer algum bem aos outros. Havendo recebido com copiosidade das mãos do Criador aquela colheita, e numa quantidade tão superior à esperada, de forma a nem ter onde armazená-la, ele deveria, segundo o desejo divino, utilizá-la também para o bem do próximo. Mas não lhe passara pela cabeça semelhante possibilidade! Se uma alma não tem a Deus como centro de suas cogitações, entra-lhe uma sofreguidão própria ao apego e, com ela, a perturbação. "Non in commotione Dominus - o Senhor não está na agitação" (I Re 19, 11). O espírito de ganância faz-nos perder a paz.12
Do mesmo modo como o já comentado monge-ferreiro não se preocupara em fazer novas fechaduras para todas as celas do mosteiro - embora fosse notável na profissão e tivesse sobrada habilidade para fazê-las -, aquele proprietário da parábola pretende construir os celeiros pensando em uma estabilidade baseada no mero gozo da vida pessoal. Em ambos sobressai uma profunda atitude egoísta.
Por outro lado, o Mestre não afirma haver uma intenção explícita de pecado em tudo isso. No entanto, ao pôr na boca daquele agricultor as palavras "descansa, come, bebe e aproveita...", aponta para um esquecimento do Primeiro Mandamento da Lei de Deus: "Amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas". Quem causara aquela situação de fartura fora agora posto de lado e não mais lembrado.
É por esse motivo que tal proprietário nem acha suficiente o considerável sustento reservado nos celeiros já existentes. No ano seguinte e nos próximos, iria colher de novo, quiçá ainda mais. Contudo, a avareza e o desejo de fruir tornavam-no cego. Este é o pensamento de todos quantos são dominados pela ganância. Nunca se satisfazem com os dons recebidos das mãos de Deus, ansiando por algo a mais. "A razão pela qual a cobiça nunca se sacia é que o coração do homem está feito para receber a Deus. [...] Assim sendo, não pode enchê-lo aquilo que é menos que Deus".13 Essa insatisfação traz um desequilíbrio emocional, traduzindo-se seus frutos na falta de virtude, devido ao desejo desordenado de querer cada vez mais. É a ganância qualificada por São Bernardo de "mal sutil, secreta peçonha, peste oculta, artífice da dor, mãe da hipocrisia, pai da inveja, origem dos vícios, semente de excessos, [...] traça da santidade que torna cegos os corações, converte em doenças os próprios remédios e em novos achaques a medicina".14
Ai de quem erige sua vida - espiritual ou temporal - só para si mesmo! Mais cedo ou mais tarde ouvirá a mesma advertência saída dos lábios de Nosso Senhor ao homem desta parábola.
No fim da vida, de nada nos servirá a ganância
20 "Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?'. 21 Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus".
Continuava a acumular trigo e bens materiais, pretendendo construir um novo celeiro seguro, pois fizera da vida no tempo seu último fim, julgando prolongá-la eternamente. Sua loucura consistiu em um ato de desamor em relação ao eterno. Esse pobre coitado talvez até tenha visto a demolição da antiga despensa. Sem embargo, nem sequer pôde ver os fundamentos da nova construção.
Quem não cumpre o Primeiro Mandamento da Lei de Deus encontra-se no caso desse infeliz. Tal é a atitude de muitas pessoas, as quais, "obscurecidas com a cobiça, nas coisas espirituais servem o dinheiro e não a Deus, e movem-se pelo dinheiro e não por Deus, pondo à frente o preço e não o divino valor e prêmio, fazendo de muitos modos seu principal deus e fim o dinheiro, antepondo-o ao último fim que é Deus".15 Esquecem-se das duas vidas presentes dentro de si: a humana e a divina, e cuidam com todo o zelo da primeira, deixando de cuidar da última, que é o estado de graça.
Ora, quem de nós não sofreu a tentação de acumular outros tipos de bens, apesar de eles nos afastarem de Deus e da eternidade, esquecendo a breve duração da nossa vida? Quantos e inúmeros casos há, na História, de pessoas cuja vida foi arrancada precisamente quando passavam pelo auge de uma realização terrena! Com efeito, afirma com severidade São João da Cruz: "todas as vezes que gozamos de maneira vã, Deus está nos olhando, traçando algum castigo e trago amargo, segundo o merecido".16 Não sejamos loucos! Quem pode assegurar o dia e a hora da própria morte, se até os médicos são incapazes de determiná-las com exatidão? Quem pode garantir a duração de sua vida até o fim da noite de hoje? Quem pode certificar-se de que continuará existindo amanhã? Para morrer, basta uma única condição: estar vivo!
Portanto, é mil vezes melhor estar, a todo instante, com a principal atenção posta no que é eterno. Depois da morte viveremos para sempre e, em um determinado momento, recuperaremos nossos corpos, em estado de glória ou de horror, dependendo de nossas obras. Se formos para o Céu receberemos a glória, mas se formos para o inferno será o perpétuo sofrimento.
Valerá a pena, pois, ficar perturbado, vivendo na aflição das coisas concretas, esquecendo-se das eternas? Ao proceder desse modo, por mais que possuamos incontáveis colheitas, desejemos construir inúmeros celeiros ou tenhamos propriedades sem fim; ou, em situação oposta, ainda que sejamos pobres, sentados à beira de um caminho pedindo esmola, o resultado será o mesmo: ficaremos amargurados, como o triste homem da parábola, dispostos a com ele construir um celeiro para esta Terra e não para a eternidade.
A legitimidade da reserva
Entretanto, uma pergunta pode surgir em nosso interior: como agir em relação às incertezas da vida presente? É legítimo fazer reservas? Como apaziguar as lícitas preocupações humanas com a estabilidade material? Na verdade, quem não examinasse com esmero o texto evangélico poderia ficar com uma impressão errada, imaginando que está se reprovando o direito de possuir, pois o homem da parábola é tido como louco pelo próprio Jesus. Estaria Deus condenando a aspiração a um direito, posta por Ele mesmo na alma humana17 - o direito de propriedade -, dando a ideia de que é pecado desejar ou possuir bens? Qual foi a loucura do homem? Teria Cristo condenado o ato de fazer reserva, pelo simples fato do agricultor, havendo reunido uma enorme colheita, muito acima de suas expectativas, ter querido levantar um celeiro capaz de receber grandes quantidades até o fim da vida? Se assim fosse, toda casa com despensa estaria condenada, porque não seria permitido fazer provisões, de acordo com este Evangelho...
Infelizmente não é raro ouvirmos argumentos absurdos contra o direito de propriedade. Ora, ele está presente nessa aspiração posta por Deus no coração humano. E é a prática de tal direto que nos permite conservar os meios para garantir a subsistência e atender as necessidades pessoais e familiares ou, até mesmo, para uma digna representação social. Mas, antes de tudo, é preciso ser rico perante Deus. E essa riqueza se conquista tendo-se a primeira atenção voltada para os bens eternos. Dessa forma, se o amor a Deus estiver presente e o egoísmo posto de lado, até o fazer reserva e o entesourar bens será legítimo.
Paulo Eduardo Roque Cardoso.jpg
Pôr do Sol na casa Lumen Coeli, dos Arautos do Evangelho - Mairiporã (SP)
Porém, o amor a Deus exige um desdobramento de amor ao próximo. É preciso, então, receber e economizar para sempre distribuir, sem guardar com exclusividade para si. Esta regra estende-se não só ao dinheiro e aos bens puramente materiais, como também a todo e qualquer benefício ou qualidade dada por Deus. Poder-se-ia, do mesmo modo, aplicar a condenação do Evangelho a quem estuda apenas com o intuito de se tornar um gênio e não para transmitir seus conhecimentos aos outros; quem reza por si e nunca pelos demais; quem se relaciona com seus semelhantes com intuito de satisfazer o desejo de louvores e estima pessoal, e não de fazer-lhes o bem, em função da salvação eterna. Tais desvarios tornam os atos de uma pessoa maléficos e marcados com o carimbo inconfundível do egoísmo.
III - Não tirar os olhos da eternidade
E necessário, pois, termos presente quão rápido passamos por esta Terra. Nossa atenção não pode fixar-se só neste mundo e esquecer o outro. Quantas vezes, ao longo dos séculos, verificamos que, quando uma nação ou uma área de civilização decide voltar-se para Deus, abrindo-se para a perspectiva da eternidade, tudo quanto é bom floresce!
Por outro lado, quando os homens excluem Deus do centro de suas vidas e Lhe roubam o lugar a Ele reservado, toda espécie de desastres e castigos desabam em cima deles. Encontramo-nos, atualmente, em uma era de invenções e de magníficas descobertas científicas, as quais eram impensáveis em tempos idos. Ora, essas maravilhas acarretam para os homens um novo e grave problema, pois, diante delas, muitos podem ficar tão obcecados que se esquecem de Deus...
Em nossos dias, com mais ímpeto que antes, a imoralidade parece querer destruir de modo definitivo a moralidade, conforme indica a velocidade de degradação das modas, dos costumes, da família. Os desregramentos morais vão se generalizando de tal maneira que, se fosse oferecido a pessoas com expectativa de morte iminente um remédio para prolongar a vida um pouco mais, exigindo-lhes, porém, a renúncia à impureza, sem dúvida alguma, boa parte delas preferiria morrer, antes de perder a possibilidade de cometer esse gênero de pecado. Quem assim procede tem, no fundo, um espírito no qual impera uma deliberada desobediência aos Dez Mandamentos, pois seus olhos estão postos nas coisas daqui de baixo e não nas do alto. Com eles se passará o que expressa também a primeira leitura de hoje, do Eclesiastes: "Um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou, também isto é vaidade" (Ecl 2, 21).
O sentido etimológico da palavra vaidade é vazio. Quem vive buscando ganâncias, imaginando com elas preencher a própria alma, corre atrás de um vazio.
Quando fazemos uma viagem definitiva para outro país, temos a possibilidade de levar conosco todos os nossos pertences. Contudo, quando saímos deste mundo - passando pelo Juízo - rumo à eternidade, nada podemos levar, nem a própria roupa, pois esta fica na sepultura, com o corpo, e torna-se alimento dos vermes. Então, melhor será aplicar o capital no tesouro espiritual, para chegarmos ao outro lado muito mais afortunados. É o conselho que hoje nos é dado: não fixarmos nossa atenção e preocupações nas coisas concretas desta Terra, mas sim nas da eternidade, o que se obtém aceitando a admoestação de São Paulo aos Colossenses, na segunda leitura da Liturgia deste domingo: "Fazer morrer em vós aquilo que pertence à Terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos, cobiça" (Col 3, 5).
Em suma, o problema não está em ter ou não ter, mas em ser rico diante de Deus. E para isso é preciso não ser romântico, não ser vaidoso, não querer o elogio dos outros, não buscar o dinheiro com sofreguidão, não ser orgulhoso. Ser rico diante de Deus é, na verdade, ser despretensioso, ser abnegado. Ser rico diante de Deus é ter muita fé. Esta é a riqueza para a qual Jesus nos convida.
Para atingir tal meta, não existe outro caminho senão o da vida de oração, onde encontraremos as graças necessárias para chegarmos felizes à eternidade. Praticar a virtude, procurando ser bom com os outros e querendo o nosso autêntico bem pessoal, eis a preparação para essa viagem sem retorno, viagem que dispensa passaporte, carteira de identidade, cartão de crédito e até visto de entrada. A entrada vai depender, isto sim, de uma vida agradável a Deus e inteiramente fiel à sua Lei. (Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2013, n. 140, p. 10 à 17)

30 de mai. de 2016

Saiba mais sobre o vício da inveja, chamada de “cárie dos ossos”

No que consiste esse vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa "como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade". Não é difícil perceber como esse vício nasce da soberba, a qual, como explica o fa­moso teólogo Frei Royo Marín, O.P.,"é o apetite desordenado da excelência própria". A inveja "é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer", faz questão de sublinhar o dominicano.
Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias (basta lembrar a história de José do Egito). Diz a Escritura: "Por inveja do diabo, entrou a morte no mundo"(Sb 2, 24). Paulo Eduardo Roque Cardoso
Eduardo Roque CardosoAqui está a raiz de todos os males de nossa terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: "... e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido"(Gn 4, 4-5).
Esse vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos (beleza, força, poder, riqueza, etc.), terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se disser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna.
"A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satâ­nicos que se pode cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, mas também da graça de Deus, que cresce no mundo", comenta Frei Royo Marín.
Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir desse vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.

Por Monsenhor João S. Clá Dias, EP.

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no link http://www.gaudiumpress.org/content/34766-A-inveja---ldquo-carie-dos-ossos-rdquo-#ixzz48quwar5S  Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte. 

9 de jan. de 2016

RECUSARÁS ESTE AMOR?

Uma das situações mais próprias a despertar a confiança e o amor a alguém é saber-se também amado por aquele a quem amamos. Há, porém, uma outra situação que nos leva a amar ainda com mais intensidade e afeto este alguém: é saber que ele nos amou antes de nós o conhecermos, que por amor a nós fez maravilhas e padeceu atrozmente para manifestar esse amor. É sobre esse amor que trata o Mons. João Clá, Fundador e Superior Geral dos Arautos do Evangelho no artigo que a seguir transcrevemos.

UM AMOR LEVADO AO EXTREMO LIMITE
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
É insondável o amor do Criador em relação a cada um de nós em particular. Por isso, às vezes, nos confunde a consideração de todos os benefícios que d’Ele recebemos.
Podendo simplesmente permanecer em sua plena e eterna felicidade, quis Deus criar o universo, com o objetivo de manifestar sua infinita bondade: “Ele criou por bondade. Não necessitava de coisa alguma daquilo que fez” ⁽¹⁾ — ensina Santo Agostinho.
A todos os homens e mulheres, Ele deu o ser, escolhendo-os um a um dentre as infinitas criaturas racionais que poderia criar. Ademais, nos redimiu do pecado, nos sustenta e favorece com seus dons, nas mais variadas circunstâncias. Mas, sobretudo, dá-nos a oportunidade de participar de sua vida divina já nesta Terra, como primícias da felicidade sem fim que nos está reservada no Céu, em inefável convívio com a Santíssima Trindade.

DEUS FAZ ALIANÇA COM OS HOMENS

Em contrapartida a tanta bondade, repete-se invariavelmente uma constante no comportamento dos homens: em determinado momento, eles se desviam dos caminhos traçados pelo Criador; a Providência, então, intervém a fim de evitar sua perdição, proporcionando-lhes os meios necessários para a salvação.
Assim, quando Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, Deus os castigou com a expulsão do Paraíso, mas fez ao mesmo tempo uma aliança com o gênero humano, prometendo-lhe a Redenção e o restabelecimento do estado de graça perdido. ⁽²⁾ 
Contudo, não tardaram os homens a recair no pecado. Logo depois de nossos primeiros pais começarem a povoar o orbe com sua descendência, o Senhor constatou “o quanto havia crescido a maldade das pessoas na Terra e como todos os projetos dos seus corações tendiam para o mal” (Gn 6, 5). Arrependido, então, de ter criado o gênero humano, o Senhor o teria extirpado por completo da face da Terra se Noé não encontrasse graça diante de seus olhos (cf. Gn 6, 8).
Assim, conforme narra a Escritura (Gn 9, 8-15), terminado o terrível castigo do Dilúvio, Deus abençoou Noé e seus filhos, e estabeleceu com eles e com sua descendência uma aliança que “permanece em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho”. ⁽³⁾
Essa aliança será mais tarde renovada com Abraão, em quem “serão abençoadas todas as famílias da Terra” (Gn 12, 3); através da Lei de Moisés, no Sinai (cf. Ex 19, 5-6); ou na promessa messiânica feita a Davi (cf. II Sm 8, 16), para citar apenas alguns dos principais episódios da história da Salvação.

CRISTO, AUGE DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Passam-se os séculos e a humanidade atinge um auge de decadência que marca simultaneamente o fim do Antigo Testamento e a “plenitude dos tempos” de que nos fala o Apóstolo (Gal4, 4). Jesus cumpre de maneira superabundante as promessas feitas aos patriarcas e profetas, assumindo a humana natureza sem deixar de ser Deus. Culmina, assim, com uma perfeição toda divina, a história da Salvação.

A Encarnação do Verbo é um mistério que ultrapassa por completo nossa capacidade intelectiva. Para tentar compreendê-lo em alguma medida, imaginemos um anjo nos propondo assumira natureza de uma minhoca, sem deixarmos a condição humana, com a missão de salvar da morte todas as minhocas do mundo. Qual seria nossa resposta? Paulo Eduardo Roque Cardoso
Ora, a diferença entre um homem e uma minhoca é insondavelmente menor do que a existente entre Deus e as criaturas racionais. No primeiro caso, há uma desproporção enorme; no segundo, nem sequer se pode falar de desproporção, porque a distância é infinita.
Entretanto, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana para nos salvar, manifestando por nós um amor extraordinário, fora de toda medida. 

DE UMA “LOUCURA” DE AMOR NASCE A SANTA IGREJA

No alto do Calvário, a bondade e a misericórdia do Verbo Encarnado pelos pecadores são levadas, por assim dizer, até à loucura (cf. I Cor 1, 18). E São Pedro nos lembra: “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.” (I Pd 3, 18)
Na Aliança estabelecida por Deus com a humanidade após o Dilúvio, Ele
prometeu não mais castigar a Terra por meio das águas (Gn 9, 11). Ora, bem se poderia dizer que a história da Salvação culmina num “dilúvio de Sangue”, de acordo com a expressiva fórmula de São Luís Maria Grignion de Montfort. ⁽⁴⁾
Porque — se não bastassem a flagelação, a coroação de espinhos e todos os sofrimentos ao caminho do Calvário — Ele permitiu que, na Cruz, uma lança Lhe perfurasse o peito sagrado.
Verteram-se nessa hora as últimas gotas de sangue e linfa que ainda restavam no seu Sacratíssimo Coração. Nasceu assim o Corpo Místico do qual Cristo é a Cabeça. “No Calvário, Ele completa sua imolação e faz nascer, em meio às mais espantosas torturas físicas e morais, a Igreja que Ele havia tão laboriosamente preparado e instituído. […] É, pois, a Igreja que, segundo a doutrina dos Padres, sai do Lado aberto do Salvador e, por assim dizer, é dada à luz por Ele”. ⁽⁵⁾ 
.
⁽¹⁾ SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. Ps.134, c.10.
⁽²⁾ Cf. CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum, n.3.
⁽³⁾ Catecismo da Igreja Católica, 58.
⁽⁴⁾4 SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge. 2. ed. Tours: Alfred Mame, 1931, p.58. Em português, no Brasil: Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, 43ª ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2014, p. 308 Paulo Eduardo Roque Cardoso
⁽⁵⁾ TANQUEREY, Adolphe. La vie de Jésus dans l’Église. Tournai: Desclée, 1933, p.59-61.
(Adaptado de “O inédito dos Evangelhos”, vol. III, Libreria Editrice Vaticana, 2013, p. 167-168. Foi também publicado na revista “Arautos do Evangelho”, nº 122, fevereiro de 2012, p. 10-12. Para acessar o exemplar do corrente mês clique aqui )
Ilustrações: Arautos do Evangelho, Gustavo Krajl, Pe. Timoty Ring, Wiki