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9 de set. de 2016

As solenes pompas da natureza

A paisagem é serena, quase monótona, porém, estuante de vida. Nas florestas tropicais tudo é generosidade.
Abundância de vida, luz e calor. Sob a selva escondem-se maravilhas do reino mineral, da fauna e da flora. O verde reveste o panorama como um manto de esmeraldas, apenas entrecortado por um imenso caldal: é o Amazonas. O maior rio do mundo. Suas águas avançam em
um suave murmúrio. Discretas, mas impetuosas, se diria invencíveis. Tão volumosas que fazem o próprio oceano recuar.
Rio Amazônas desembocando no Mar Atlântico
De fato, o Amazonas é o maior rio do mundo tanto em volume quanto em extensão. Possui mais de mil afluentes e forma uma bácia hidrográfica de 7 milhões de Km², o equivalente a Europa Ocidendal. Em alguns trechos atinge 100m de profundidade e 190 Km de largura. Um quinto das águas fluviais do mundo desembocam do Rio Amazonas e seu caudal equivale a soma do volume de água dos 10 maiores rios do mundo.  Nasce no Peru, a 160 Km do Lago Titicaca, aos pés do Nevado Mismi, a aproximadamente 5.000 metros de altitude, e após quase 7.200 km, dos Andes ao Atlântico,[1] desemboca em um Estuário de 330 Km, o qual possui a maior ilha marítimo-fluvial do mundo, a ilha de Marajó. Por esses predicados é chamado The River Sea, O Rio Oceano. É o Rio da Grandeza! Não somente por suas proporções. Até mesmo sua história nasce adornada pelos  louros da aventura e pelas glórias reais do maior império marítimo da História.
O império onde o sol não se punha
Carlos V
O Império de Carlos V foi verdadeiramente um dos maiores da Humanidade. Dizia o monarca espanhol que em seu Império o sol não se punha; e era real. No Continente Europeu, era soberano da Península Ibérica e Itálica, assim como de numerosas províncias flamengas e austríacas. Possuía domínios na África, Índia e em vários arquipélagos do Extremo Oriente. O imperador reinava também sobre a maior parte da América.
Vicente Pizón
Um território tão amplo se devia em grande parte a um hábil corpo de exploradores que perscrutavam as riquezas destas longínquas terras. Um desses aventureiros foi Vicente Pizón. Segundo alguns historiadores, foi o primeiro cristão a contemplar o Amazonas ainda no ano de 1500. O imenso rio foi batizado pelo explorador de Río Santa María del Mar Dulce, em homenagem Àquela que lhe tinha protegido contra tantos perigos encontrados ao longo de sua expedição, graças a esta proteção ele, por fim, pôde conhecer o oceano de águas doces.
Francisco Orellana
Todavia, não foi o primeiro europeu a navegar por toda extensão dessas águas, cujo tamanho, perigo e riqueza, eram ainda desconhecidos. Em 1541, Francisco Orellana (1490-1550) em demanda do lendário El Dorado, começou a exploração do rio sagrado que os Incas chamavam de Rio Orinoco , na Venezuela, riquíssimo em ouro. O descobridor penetrou na Amazônia deparando-se com um rio ainda maior que o Orinoco, podendo descrever uma incrível viagem pelo extraordinário emaranhado de afluentes.
Em certo ponto da viagem, Orellana travou um acirrado combate com mulheres guerreiras  que lhes disparavam flechas e dardos de zarabatana. Voltando a Europa, narrou o fato a Carlos V, que, inspirado nas guerreiras hititas da mitologia clássica as quais portavam arcos e montavam cavalos de guerra, passou a chamar o rio de Amazonas.
O explorador Orellana descreveu as amazonas do Rio sul-americano como:“Mulheres altas e adestradas ao combate. Habitavam casas de pedra e acumulavam metais precisosos”. Na verdade, era a tribo dos yaguas, indígenas que usam uma longa cabeleira e ainda hoje habitam a região da confluência dos rios Napo e Negro.[2]Diz-se também que o nome Amazonas é de origem indígena, da palavra amassunu, que quer dizer “ruído de águas, água que retumba”.
Vida em abundância
Sob essas volumosas e serenas águas encontram-se raras e extraordinárias riquezas. Mais de 3.000 espécies de peixes foram encontradas neste rio,  superando em variedade o Oceano Atlântico. Dentre elas, algumas se destacam pela beleza, como os peixes ornamentais, ou então, os botos: animais semelhantes aos golfinhos que atingem 2,6m de comprimento dotados de cores prestigiosas como o azul e o rosa. Menos simpático que os botos são as piranhas, terríveis peixes carnívoros. Ou ainda o Poraquê, um animal aquático que emana ondas elétricas de até 500 volts. Em suas águas também vive o maior peixe de água doce do mundo, o pirarucu, quepossui cerca de três metros de comprimento e 200 Kg, enriquecendo com seu sabor o cardápio popular.
Pororoca do Rio Amazonas em Chaves, Ilha de Marajó - PA
Outra curiosidade do Amazonas é o fenômeno da Pororoca, conhecido nos rios europeus como mascaret ou bore. Trata-se de uma elevação repentina de grandes massas de água junto a foz, provocadas pelo movimento das marés. Após o oceano ter suas águas empurradas cerca de 160Km pelo Amazonas onde a salinidade do mar é muito baixa, ao subir da maré, o mar invade o rio formando ondas que podem atingir seis metros de altura e cinqüenta quilômetros por hora. Esta poderosa vaga pode durar até trinta minutos. As águas do oceano adentram no rio arrastando árvores e embarcações. O rio recua ante a impetuosa vingança do mar, mas, em seguida, sereno e vitorioso, o Amazonas volta a seu curso normal depois do duelo com o Atlântico.

Uma realidade superior
As grandezas deste rio faz lembrar realidades superiores. De fato, toda criação é uma imagem dos seres espirituais e do mundo sobrenatural. O Amazonas poderia ser denominado como o rio da grandeza. Não só pelos seus títulos e predicados, mas sobretudo, pelo que representa da vocação dos povos que irriga. Quantos missionários verteram o seu sangue pela Fé junto àquelas águas? Inúmeros. E o resultado foi  surpreendente. Hoje, as jovens nações da América Latina, com apenas 500 anos de história e 200 de independência, somam cerca da metade dos católicos no mundo. [3] Estas nações de etnia negra, índia e européia, além de unidas pela origem de seus idiomas, pela nova raça oriunda da miscigenação, também o são pela irmandade espiritual do batismo. Formam pela fé católica apostólica romana um só conjunto.
O Amazonas com suas riquezas  parece refletir como um enorme espelho as maravilhas postas pela graça de Deus na alma sul-americana.
Ele também simboliza algo ainda mais sublime. Uma realidade espiritual, ao mesmo tempo visível: A Santa Igreja Católica. Esta é como um vasto rio, de quase dois mil anos, feito com uma água puríssima e com sua nascente muito mais alta que a do Amazonas, pois nasceu do lado aberto de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A Igreja avança invencível na História, fecunda com suas ricas e férteis águas, todas as personalidades, nações e instituições. Quantos solos outrora áridos, graças a Ela, se tornaram férteis e têm dado à humanidade flores das mais belas e perfumadas, e produzido frutos robustos.

16 de jun. de 2016

E para você o que é uma vida feliz?

 Paulo Eduardo Roque Cardoso - Monsenhor João Clá Dias, Fundador dos Arautos do Evangelho
    Está em nossa natureza o desejo da felicidade. Sempre estamos, explicita ou implicitamente,
buscando-a de alguma forma. Basta ser humano para se querer este ideal. E, certamente, quem a encontrou pode dizer que fez o grande negócio de sua vida, ou então, que ganhou a vida.
    Ora, mas quando é que se ganha a vida? Paulo Eduardo Roque Cardoso
    Muitos dirão: Ah! Tendo muito dinheiro!
    Mas se pararmos para analisar aqueles que tiveram ou têm excelente situação econômica, poderíamos nos perguntar: todos eles foram ou são felizes? Muitos de nós, talvez, poderemos responder pela experiência da vida: não! Seja por casos de doença (como dizem: dinheiro não compra saúde), por problemas de relacionamento, seja o que for, o dinheiro não traz o que a vida não proporcionou, não se terá assim a felicidade completa.
      Alguém ainda poderia dizer: a felicidade está no prestígio, em ser aplaudido e ser bem visto. No entanto, quantos foram aqueles que num momento eram elogiados e ovacionados e, com o passar do tempo, foram desprezados ou esquecidos. Há casos também de pessoas muito aplaudidas pela sociedade, mas que por algum problema pessoal carregam grandes amarguras, muito bem dissimuladas perante o público, mas que algumas vezes acabam vindo à luz em desfechos trágicos.
       Bem, mas alguém também poderá dizer: pelo menos alcançam felicidade aqueles que têm os prazeres da vida. Aqui talvez seja mais evidente o desmentido da realidade. Vivenciamos um período histórico no qual uma “famosa” doença atinge a um número crescente de pessoas das mais variadas idades, entre essas, muitas emblemáticas e gozadoras da vida, que após seus momentos de euforia, na intimidade, têm como indesejável companheira a depressão.
       Mas então, como encontrar a felicidade?
        Busquemos na sabedoria da Igreja, “tão antiga e tão nova” – adaptando os dizeres de Santo Agostinho – as luzes do Evangelho que possam iluminar as vias que nos conduzirão a uma felicidade especial, incomparável, que“nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não assaltam nem roubam” (Mt 6, 20).         
Uma leitura cuidadosa do Evangelho de São Lucas mostrará um trecho luminoso a este respeito. Eis que, na contramão da avareza, das honras e prazeres mundanos, deparamo-nos com os versículos 23-24, contemplados no XII Domingo do Tempo Comum, em que Nosso Senhor diz:
         “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9, 23). Seguí-Lo para onde? Onde está Jesus? Ele se encontra agora “sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso” (1), em seu trono de glória, gozando da maior e mais perfeita felicidade, tão grande que não podemos concebê-la: a felicidade eterna! E continua:
         “Pois quem quiser ganhar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 24).
         Portanto, atendamos ao convite de Nosso Senhor. Comentava estas divinas palavras, Mons. João Clá Dias: “[…] podemos ressaltar que, ‘ganhar a vida’ significa também ter uma existência pautada pelos Mandamentos, visando como objetivo a santidade. Em nossa época, na qual os homens pagam qualquer tributo para trilhar uma carreira brilhante e construir um nome de prestígio, lucraria muito quem meditasse nessa passagem […]”
Então caro leitor, se nós queremos “ganhar a vida” e, veja bem, nos dois sentidos da expressão, ou seja, alcançarmos a felicidade possível nesta terra e a eterna no Céu, sigamos o maravilhoso conselho, que vem acompanhado de uma promessa infalível, não feita por qualquer homem, mas pelo próprio Homem-Deus:
         “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentada” (Mt. 6, 33).
E assim teremos ganho, como Ele, a vida. Roguemos à Nossa Senhora a graça de seguirmos a Nosso Senhor,  nas vias da santidade, dos Mandamentos, alcançando a verdadeira felicidade.
Adilson Costa da Costa

(1) Catecismo da Igreja Católica. Artigo 6. 11ª ed. São Paulo: Loyola, 1999, p. 189.
(2) Mons. João S. Clá Dias, EP. O inédito sobre os Evangelhos. v. VI, Coedição internacional de Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana e São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012, p. 173-174.

13 de jun. de 2016

“PONDE, SENHOR, UMA GUARDA EM MINHA BOCA”

Aline Karolina de Souza Lima
Desejoso de presentear seus amigos com um banquete, o filósofo Xanthus encarregou seu escravo Esopo de comprar no mercado o que havia de melhor.
Pelo caminho ia Esopo pensativo:
– Tenho de ajudar meu amo, coitado, o ponto fraco dele é a língua, só diz bagatelas e nunca glorifica a Deus com seus lábios. Já sei !!!
Esopo comprou línguas e temperou-as com excelente molho.
Os convidados elogiaram no princípio os manjares, mas, ao fim, se cansaram de tanta língua. Xanthus, furioso, disse ao escravo:
– Não te encarreguei que comprasse o que havia de melhor?
– Mas, meu senhor, o que há de melhor que a língua? Com ela podemos proclamar o bem e falar para edificação do próximo, rezar, expandir a fé, dar bons conselhos e cantar louvores a Deus. Para quantas coisas ela é útil!
– Pois bem, disse Xanthus – que achou ter posto seu escravo em apuros – então comprarás amanhã tudo o que houver de pior. Pois, se para ti o que há de bom é língua, o que há de pior deve ser um pouco melhor.
– Está bem, respondeu o escravo, farei isso com todo gosto.
No dia seguinte Esopo comprou mais línguas, e justificou-se diante de seu senhor, dizendo:
– A língua é o pior que há no mundo! É a mãe da calúnia, da crítica, da mentira. É o órgão do terror! Além do mais, é usada para proferir palavras ociosas, banais, palavras de vaidade, murmurações… Se não é bem empregada, traz inúmeros males.
Relicário com a língua incorrupta de              Santo Antonio de Pádua
O Espírito Santo diz “No muito falar, não faltará a culpa” (Pr 10, 19). São Tiago afirma: “Se alguém não cair por palavras, este é um homem perfeito” (Tg 3, 2). E ainda no Eclesiástico: “Bem-aventurado quem não peca com a língua” (Eclo 25, 11). Não se trata de ficar sempre calados, mas simplesmente refletir antes de falar. Santo Ambrósio diz: “Ou cala, ou dize coisas melhores que o silêncio”.
Deixamos aqui uma pergunta: Quais os assuntos de nossas conversas? Fazemos como Xanthus, pronunciando palavras ociosas e banalidades? Lembremo-nos de que a língua é um ótimo instrumento para glorificar a Deus e praticar a caridade. Saibamos, então, usá-la convenientemente.

6 de jun. de 2016

A inveja nas Sagradas Escrituras

Nas Sagradas Escrituras, são numerosas as referências sobre o vício da inveja. No livro dos Provérbios, ela é considerada como "a cárie dos ossos" (Prov. 14, 30) e São Paulo a enumera entre os pecados que nos fazem perder o Reino dos céus (Gl, 5, 21).
Foi por inveja que os irmãos de José resolveram vendê-lo como escravo aos egípcios (Gn. 37,11). Também Saul, ao ver que Davi vencera o gigante Golias, encheu-se de inveja contra ele e por diversas vezes tentou matá-lo (I Sam. 18:6-8).
Já São Mateus nos narra que até mesmo Pilatos reconheceu que foi por inveja que os fariseus entregaram Cristo para ser morto: "Estando o povo reunido, perguntou-lhe Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado o Cristo?São Tomás de Aquino.jpgPois sabia que por inveja o haviam entregado"(Mt 27, 18).
Etimologia da palavra "inveja"
Etimologicamente, a palavra "inveja" é composta pelo verbo latino videre (ver) e da partícula in, que indica privação. Desta forma, invidere significa olhar com maus olhos, projetar sobre o outro um olhar malicioso. Daí a origem do famoso trocadilho de Santo Agostinho: "Video, sed non invideo" [1], ou seja, "vejo, mas não invejo."
As definições sobre a natureza da inveja ao longo dos séculos concordam notavelmente entre si. Na tradição aristotélica ela é considerada como uma dor causada pela boa fortuna que goza alguns de nossos semelhantes. Paulo Eduardo Roque Cardoso
Para São Tomás de Aquino, a inveja se caracteriza por uma "tristeza do bem alheio, enquanto se considera como mal próprio, porque diminui a própria glória ou excelência." [2]
A inveja é também entendida como uma paixão que é ao mesmo tempo filha do orgulho e da malquerença, em que se misturam o ódio e o desgosto provocado pela felicidade de outrem.
É por este motivo que os invejosos estão condenados a sofrer continuamente, pois o ódio provocado pela ira facilmente se apazigua mediante a reparação, mas aquele nascido da inveja não se amansa nem admite reparações. Mais ainda, irrita-se com os benefícios recebidos.
Seu âmbito de ação parece não conhecer limites, pois até mesmo no céu ela se fez presente, quando os anjos maus invejaram a glória que Deus havia reservado aos homens.[3] Granada a considera como um dos pecados mais estendidos, pois a inveja a impera em todo o mundo e mora especialmente nas cortes e palácios, nas casas dos senhores e príncipes, nas universidades e cabidos e ainda, nos conventos de religiosos. Seu objetivo e meta é perseguir aos bons e aos que por suas virtudes são altamente apreciados.[4]
Por Diácono Inácio de Araújo Almeida
[1] Santo Agostinho: In Evangelium Ioannis Tractatus 44, 11.
[2] São Tomás de Aquino. Suma Teológica: II-II, q. 36, a. 1.
[3] Caremo, Girolamo. Istruzioni Pratiche intorno ad alcuni Doveri Generali e particulari del Cristiano. 2a ed. Gaetano Motta: Milano, 1822, p. 332.
[4] Granada Luis de. Obras de V. P. M. Fray Luis de Granada. Tomo I. La Publicidad: Madrid, 1848, p.132.

30 de mai. de 2016

Saiba mais sobre o vício da inveja, chamada de “cárie dos ossos”

No que consiste esse vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa "como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade". Não é difícil perceber como esse vício nasce da soberba, a qual, como explica o fa­moso teólogo Frei Royo Marín, O.P.,"é o apetite desordenado da excelência própria". A inveja "é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer", faz questão de sublinhar o dominicano.
Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias (basta lembrar a história de José do Egito). Diz a Escritura: "Por inveja do diabo, entrou a morte no mundo"(Sb 2, 24). Paulo Eduardo Roque Cardoso
Eduardo Roque CardosoAqui está a raiz de todos os males de nossa terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: "... e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido"(Gn 4, 4-5).
Esse vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos (beleza, força, poder, riqueza, etc.), terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se disser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna.
"A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satâ­nicos que se pode cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, mas também da graça de Deus, que cresce no mundo", comenta Frei Royo Marín.
Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir desse vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.

Por Monsenhor João S. Clá Dias, EP.

Conteúdo publicado em gaudiumpress.org, no link http://www.gaudiumpress.org/content/34766-A-inveja---ldquo-carie-dos-ossos-rdquo-#ixzz48quwar5S  Autoriza-se a sua publicação desde que se cite a fonte. 

16 de mai. de 2016

Saiba como livrar-se da inveja

Da mesma forma que a inveja gera ódio, a admiração é fonte de amor. Quem pratica essa virtude se alegra com o bem dos seus irmãos e prepara o espírito para louvar e servir a Deus.
Pe. Inácio de Araújo Almeida, EP 
Que fizeste? Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por Mim desde a terra" (Gn 4, 8-10). Esta indagação de Deus a Caim ecoa ainda hoje, recordando aos homens o primeiro fratricídio da História, cuja causa foi uma só: a inveja. Caim não suportou ver seu irmão Abel corresponder generosamente ao amor que Deus lhe manifestava.
Davi apresenta a cabeça de Golias a Sau? - Catedral de Chester - Inglaterra1.jpg
As vitórias de Davi despertaram
a inveja do Rei Saul
Desde a aurora da humanidade esse vício, qualificado pelo Antigo Testamento como "a cárie dos ossos"(Pr 14, 30), vem provocando desgraças entre os homens. Movidos por ele, os irmãos de José venderam-no como escravo (cf. Gn 37, 11-28) e Saul arremessou duas vezes sua lança sobre Davi com o intuito de "cravá-lo na parede" (I Sm 18, 7-11). Chegada a plenitude dos tempos, será também esse o motivo pelo qual os fariseus entregaram Jesus ao tribunal de Pilatos: "Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja" (Mt 27, 18).
Não é, pois, de estranhar, que Santo Agostinho a considere como "o pecado diabólico por excelência". 1 Ou que São Basílio pergunte se pode haver uma enfermidade de alma mais terrível do que a inveja. Pois, para este Padre da Igreja
Caim foi o primeiro discípulo de Lúcifer, e dele aprendeu a ser homicida. 2 "Pela inveja do demônio é que a morte entrou no mundo" (Sb 2, 24).
Frei Luís de Granada, do seu lado, a considera "um dos pecados mais poderosos e prejudiciais, e que mais espalhou seu império pelo mundo, de modo especial nas cortes e palácios, nas casas de senhores e de príncipes; não poupa universidades nem cabidos, nem conventos de religiosos".3
Ora, se tão grande é esse mal, haverá para ele algum remédio? Ou, melhor ainda, um meio eficaz de preveni-lo? É o que tentaremos desvendar neste artigo. Para isso, comecemos por conhecer melhor este defeito que é, ao mesmo tempo, uma paixão e um pecado capital.
Conceitos concordantes ao longo dos séculos
Etimologicamente, a palavra "inveja" provém do verbo latino invidere, que significa deitar sobre o outro um olhar malicioso. Daí a origem do famoso trocadilho de Santo Agostinho: "Video, sed non invideo - Vejo, mas não invejo".4
São notavelmente concordantes, ao longo dos séculos, as características atribuídas a ela pelos mais diversos autores. Aristóteles a define na sua Retórica como uma dor causada pela boa fortuna de que gozam alguns de nossos semelhantes, não com a intenção de a obtermos para nós, mas pelo simples fato de eles a possuírem.5
São Tomás de Aquino, citando São João Damasceno, caracteriza a inveja como "uma tristeza dos bens do outro".6 E explica que ela "é sempre má" porque faz sentir pesar diante daquilo que deveria causar alegria, isto é, o bem do próximo.7
Com pequenas variantes, manifestam idêntica opinião tratadistas recentes como o dominicano Royo Marín, que a define como sendo "a tristeza face ao bem alheio enquanto rebaixando nossa glória e excelência". E acrescenta que dela procedem "o ódio, a murmuração, a difamação, a satisfação pela adversidade do próximo e a tristeza por sua prosperidade".8
Precocidade desta paixão na alma humana

A paixão da inveja está de tal forma arraigada na natureza humana decaída pelo pecado que, antes mesmo de ela ser capaz de formular suas primeiras concepções sobre o mundo ou de poder balbuciar alguma palavra, já se podem manifestar numa criança algumas de suas características. Assim, Santo Agostinho escreve no livro das Confissões: "Vi e observei um menino invejoso. Ainda não falava e já olhava lívido e com rosto amargurado para outro menino, seu irmão colaço".9
Também Mons. João Scognamiglio Clá Dias põe em realce a precocidade desse defeito: "Quantos de nós não nos lançamos nos abismos da ambição, da inveja e da cobiça já nos primeiros anos de nossa infância?" - pergunta ele.10 E acrescenta: "Há paixões que se mantêm letárgicas até a adolescência, assim não o é a inveja; ela se manifesta já na infância e acompanha o homem até a hora de sua morte. Não será difícil aos pais observar os sinais desse vício, em seus pequenos.
Irmãos ou irmãs, entre si, não poucas vezes terão problemas por se imaginarem eclipsados pelas qualidades ou privilégios de seus mais próximos. Quantas vezes não acontece de ser necessário separar irmãos, ou irmãs, na tentativa de corrigir essas rivalidades que podem chegar a extremos inimagináveis, tal qual se deu entre os primeiros filhos de Eva, Caim e Abel?".11
Quatro graus de gravidade crescente
Tomando em consideração o objeto sobre o qual ela se aplica, o pecado capital da inveja tem sido classificado pelos moralistas em quatro graus, em ordem crescente de gravidade. Paulo Eduardo Roque Cardoso
_?A Inveja?, por Giotto di Bondoni - Capela de Scrovegni - Padua - Italia.jpg
"A Inveja", por Giotto di Bondoni -
Capela di Scrovegni, Pádua (Itália)
O primeiro e mais grosseiro consiste em invejar os bens temporais do próximo, como, por exemplo, riqueza, honra, dignidades ou beleza física. O segundo refere-se aos bens intelectuais, tais como cultura, ciência, habilidades, dons artísticos e entendimento. No terceiro grau, muito mais grave, o invejoso tem por mira as virtudes e bens espirituais do próximo, entristecendo-se ao ver que outros os possuem e são, por isso, honrados e louvados como santos.
Ela pode chegar, por fim, até à inveja da graça fraterna, um dos pecados contra o Espírito Santo.12 Sobre este grau supremo, ensina-nos o Doutor Angélico: "Há, contudo, uma inveja a ser enumerada entre os mais graves pecados, a saber, a inveja da graça de nossos irmãos. Nesse caso, alguém se aflige com o progresso da graça divina, e não somente com o bem do próximo. É um pecado contra o Espírito Santo, porque por essa inveja o homem de alguma maneira inveja o Espírito Santo que Se glorifica em suas obras".13
Volta-se contra os mais próximos
Pode-se afirmar ser a inveja um dos pecados que mais assemelha o homem aos demônios, "que sentem grande pesar pelas obras boas que fazemos e os bens que obtemos".14 Ela excita sentimentos de ódio e tende a semear divisões até no seio das famílias, pois ela se volta principalmente contra aqueles que nos são mais próximos. Paulo Eduardo Roque Cardoso
Nesse sentido, afirma Aristóteles: "Sentirão inveja aqueles que são ou parecem ser os nossos pares, entendendo por pares aqueles que são semelhantes a nós em estirpe, parentesco, idade, disposição, reputação e posses. [...] Invejamos as pessoas que nos são chegadas no tempo, lugar, idade e reputação, de onde o provérbio: ‘O familiar também sabe invejar'".15
A razão disto no-la ensina São Tomás: "A inveja se refere à glória do outro enquanto esta diminui a glória que se deseja. Em consequência, alguém inveja somente os que quer igualar ou ultrapassar em glória. Ora, isso não é possível com
aqueles que estão muito distantes".16
A inveja é também fonte de perturbação para a própria alma de quem a pratica. "Não há paz nem sossego", afirma Tanquerey, "enquanto se não consegue eclipsar, dominar os próprios rivais; e, como é muito raro que se chegue a alcançá-lo, vive-se em perpétuas angústias".17
Quem se deixa arrastar pela inveja, explica Mons. João Scognamiglio Clá Dias, "perde o verdadeiro repouso de alma e passa a viver constantemente na preocupação, na inquietude e na ansiedade. Estará sempre atormentado pelo pavor de ficar à margem, de ser esquecido, igualado ou superado. Sua existência será um inferno antecipado e essas paixões serão seus próprios carrascos".18
Emulação não é inveja
Embora sejam frequentemente confundidos, inveja, ciúme e cobiça são sentimentos distintos. Em termos simples, poderíamos resumir as diferenças entre eles como sendo o ciúme o anseio por manter aquilo que se tem; a cobiça, o desejo de possuir aquilo que não se tem; e a inveja, a tristeza ao ver que o outro possui um determinado bem.
Ouve-se também falar com certa frequência de uma "inveja sã" ou positiva, que consiste em desejar algo que o outro tem - por exemplo, virtude - sem, entretanto, entristecer-se nem desejar-lhe mal algum. Ora, esse sentimento não deve ser denominado de inveja, mas sim de emulação, a qual é definida por Tanquerey como "um sentimento louvável que nos leva a imitar, igualar e, se possível for, sobrepujar as qualidades dos outros, mas por meios leais".19
Cain mata Abel.jpg
"Caim mata Abel" - Catedral de São Gatian,
Tours (França)
José sendo jogado no poço por seus irmãos.jpg
 "José sendo jogado no poço por seus irmãos" 
Catedral de Colônia (Alemanha)
Jesus na casa de um fariseu.jpg
 "Jesus na casa de um fariseu" - Paróquia de
São Patrício, Roxbury (EUA)
Mas, ensina-nos o mesmo Tanquerey, para que a emulação seja de fato uma virtude cristã, ela precisa ser honesta no seu objeto, nobre na sua intenção e leal quanto aos meios de ação. Em outros termos, jamais poderá ela utilizar- se da intriga ou de qualquer outro processo ilícito, mas sim do esforço pessoal, do trabalho e principalmente do bom uso dos dons recebidos de Deus.20
Existe remédio eficaz para tão grande mal?
Ora, como fazer para combater essa paixão tão precoce e universal, e ao mesmo tempo tão deletéria?
Como acontece com todos os defeitos, o primeiro e mais importante antídoto para a inveja consiste na prática da virtude da caridade. "O amor", ensina São Paulo, "é paciente; é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido; não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade" (I Cor 13, 4-6).
Também a virtude da emulação, da qual falamos pouco acima, é uma arma eficaz para combatê-la, pois "considerar como modelos os melhores dentre os nossos irmãos para os imitar, ou até mesmo sobrepujar, é, afinal, reconhecer a nossa imperfeição e querer dar-lhe remédio, aproveitando os exemplos dos que nos rodeiam".21 Para assim agir, devemos nos compenetrar de que as qualidades e virtudes do próximo não diminuem as nossas, mas, pelo contrário, nos incentivam a avançarmos, também nós, nas vias da perfeição.
Contudo, existe também outro remédio, intimamente ligado à virtude da caridade, que acreditamos ser um dos principais antídotos contra a inveja. Chama-se admiração.
Da admiração surge o amor
Da mesma forma que a inveja é fonte de ódio, a admiração o é do amor. E por isso, bem se poderia dizer que o Primeiro dos Mandamentos inclui o dever de "admirar a Deus sobre todas as coisas".
A alma que pratica essa virtude adquire algo que a torna, por sua vez, digna de admiração. Porque, explica Plinio Corrêa de Oliveira, "ela transfunde em nós aquilo que admiramos. Quando admiramos desinteressadamente algo, aquilo entra em nós, e à força de contemplar tanta força nós ficamos mais fortes; à força de contemplar tanta doçura, ficamos mais desapegados".22
"Quanta felicidade, paz e doçura têm as almas que são despretensiosas, reconhecedoras dos bens e das qualidades alheias, restituidoras a Deus dos dons por Ele concedidos", exclama Mons. João em um dos seus Comentários ao Evangelho.23 E Plinio Corrêa de Oliveira acrescenta que se mantivermos nosso espírito nesse "estado de admiração", em pouco tempo veremos nascer em nossa alma "um paraíso constante, uma alegria fixa, estável e contínua".24
Em consequência, devemos pedir a Nossa Senhora, Mãe Admirável, que afaste de nossas almas toda e qualquer fímbria de inveja, dando- nos, em sentido contrário, a graça de ter a alma altamente admirativa que se alegra com o bem de seus irmãos e louva a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem assim proceder "notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste".25

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 A inveja é pecado?
São Tomás se pergunta, na Suma Teológica, se a inveja é pecado.1 E aborda o tema deixando clara a diferença entre a inveja e alguns outros sentimentos semelhantes que podem não constituir pecado, pois em muitas passagens da Escritura, bem como nos escritos dos Santos, somos convidados a imitar ou "invejar" o próximo.
São Tomás de Aquino_.jpg
"São Tomás de Aquino" - por Fra Angélico, 
detalhe do tríptico de São Pedro Mártir,
Museu de São  Marcos, Florença (Itália)
Por exemplo, em carta a uma de suas dirigidas espirituais, São Jerônimo recomenda-lhe dar à sua filha "companheiras de estudo que ela possa invejar, cujos êxitos a estimulem".2
A inveja, como foi visto, é uma certa tristeza causada pelos bens alheios. Mas a tristeza à vista dos bens de outrem pode sobrevir de quatro modos.
1º - Quando um homem se entristece por ver que seu inimigo foi promovido e, com isso, ficou em condições de prejudicá-lo, tal sentimento não é inveja, mas sim um efeito do medo. Portanto, pode não ser pecado, explica o Doutor Angélico, citando São Gregório: "Acontece muitas vezes que, sem faltar com a caridade, a ruína do inimigo nos alegre, ou sua glória nos entristeça, sem que haja pecado de inveja, quando pensamos que sua queda permitirá que alguns se levantem, ou quando tememos que seu sucesso seja para muitos sinal de uma injusta opressão".3
2º - Se nos entristecemos com o bem do próximo, não pelo fato de este o possuir, mas porque dele estamos privados, não é propriamente inveja, é zelo. Consiste no fato de desejar um bem que o outro tem, sem, entretanto, querer que o outro deixe de possuí- -lo. Afirma São Tomás: "Se esse zelo se refere a bens honestos, é então digno de louvor, conforme diz o Apóstolo: ‘Tenham emulação pelos bens espirituais' (I Cor 14, 1). Referindo-se a bens temporais, pode ou não ser acompanhado de pecado".4
3º - Pode acontecer de alguém entristecer-se à vista do bem do próximo, pelo fato de ser indigno quem o possui. Entretanto, tal tipo de tristeza não pode recair sobre os bens honestos, pois estes melhoram aquele que os recebe. Essa tristeza chama-se nêmesis ou indignação causada pela injustiça, explica São Tomás, o qual nos adverte: "Os bens temporais, que os indignos recebem, lhes são concedidos por uma justa ordenação de Deus, para sua emenda ou para sua condenação. Esses bens não têm, por assim dizer, nenhum valor, em comparação com os bens futuros que são reservados aos bons. Por isso essa tristeza é proibida pela Escritura, segundo o salmo: ‘Não tenhas inveja dos pecadores, não invejes os que cometem a iniquidade' (Sl 36, 1). E num outro salmo: ‘Ainda um pouco e eu daria um passo em falso, porque estava com inveja dos ímpios, vendo a paz dos pecadores' (Sl 72, 2-3)".5
4º - O quarto modo é o que corresponde propriamente à inveja. Ou seja, é a tristeza pelo bem do outro pelo fato de este ter mais do que nós. Isto é sempre pecado, pois nos leva a entristecer por algo que deve causar-nos alegria: o bem do próximo.
1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q. 36, a.2.
2 SÃO JERÔNIMO. Epist. 107, al.7, n.4; ML 22, 871.
3 SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., II-II q. 36, a.2.
4 Idem, ibidem.
5 Idem, ibidem.
(Revista Arautos do Evangelho, Abril/2012, n. 124, p. 20 à 25)

9 de jan. de 2016

RECUSARÁS ESTE AMOR?

Uma das situações mais próprias a despertar a confiança e o amor a alguém é saber-se também amado por aquele a quem amamos. Há, porém, uma outra situação que nos leva a amar ainda com mais intensidade e afeto este alguém: é saber que ele nos amou antes de nós o conhecermos, que por amor a nós fez maravilhas e padeceu atrozmente para manifestar esse amor. É sobre esse amor que trata o Mons. João Clá, Fundador e Superior Geral dos Arautos do Evangelho no artigo que a seguir transcrevemos.

UM AMOR LEVADO AO EXTREMO LIMITE
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
É insondável o amor do Criador em relação a cada um de nós em particular. Por isso, às vezes, nos confunde a consideração de todos os benefícios que d’Ele recebemos.
Podendo simplesmente permanecer em sua plena e eterna felicidade, quis Deus criar o universo, com o objetivo de manifestar sua infinita bondade: “Ele criou por bondade. Não necessitava de coisa alguma daquilo que fez” ⁽¹⁾ — ensina Santo Agostinho.
A todos os homens e mulheres, Ele deu o ser, escolhendo-os um a um dentre as infinitas criaturas racionais que poderia criar. Ademais, nos redimiu do pecado, nos sustenta e favorece com seus dons, nas mais variadas circunstâncias. Mas, sobretudo, dá-nos a oportunidade de participar de sua vida divina já nesta Terra, como primícias da felicidade sem fim que nos está reservada no Céu, em inefável convívio com a Santíssima Trindade.

DEUS FAZ ALIANÇA COM OS HOMENS

Em contrapartida a tanta bondade, repete-se invariavelmente uma constante no comportamento dos homens: em determinado momento, eles se desviam dos caminhos traçados pelo Criador; a Providência, então, intervém a fim de evitar sua perdição, proporcionando-lhes os meios necessários para a salvação.
Assim, quando Adão e Eva cometeram o primeiro pecado, Deus os castigou com a expulsão do Paraíso, mas fez ao mesmo tempo uma aliança com o gênero humano, prometendo-lhe a Redenção e o restabelecimento do estado de graça perdido. ⁽²⁾ 
Contudo, não tardaram os homens a recair no pecado. Logo depois de nossos primeiros pais começarem a povoar o orbe com sua descendência, o Senhor constatou “o quanto havia crescido a maldade das pessoas na Terra e como todos os projetos dos seus corações tendiam para o mal” (Gn 6, 5). Arrependido, então, de ter criado o gênero humano, o Senhor o teria extirpado por completo da face da Terra se Noé não encontrasse graça diante de seus olhos (cf. Gn 6, 8).
Assim, conforme narra a Escritura (Gn 9, 8-15), terminado o terrível castigo do Dilúvio, Deus abençoou Noé e seus filhos, e estabeleceu com eles e com sua descendência uma aliança que “permanece em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho”. ⁽³⁾
Essa aliança será mais tarde renovada com Abraão, em quem “serão abençoadas todas as famílias da Terra” (Gn 12, 3); através da Lei de Moisés, no Sinai (cf. Ex 19, 5-6); ou na promessa messiânica feita a Davi (cf. II Sm 8, 16), para citar apenas alguns dos principais episódios da história da Salvação.

CRISTO, AUGE DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Passam-se os séculos e a humanidade atinge um auge de decadência que marca simultaneamente o fim do Antigo Testamento e a “plenitude dos tempos” de que nos fala o Apóstolo (Gal4, 4). Jesus cumpre de maneira superabundante as promessas feitas aos patriarcas e profetas, assumindo a humana natureza sem deixar de ser Deus. Culmina, assim, com uma perfeição toda divina, a história da Salvação.

A Encarnação do Verbo é um mistério que ultrapassa por completo nossa capacidade intelectiva. Para tentar compreendê-lo em alguma medida, imaginemos um anjo nos propondo assumira natureza de uma minhoca, sem deixarmos a condição humana, com a missão de salvar da morte todas as minhocas do mundo. Qual seria nossa resposta? Paulo Eduardo Roque Cardoso
Ora, a diferença entre um homem e uma minhoca é insondavelmente menor do que a existente entre Deus e as criaturas racionais. No primeiro caso, há uma desproporção enorme; no segundo, nem sequer se pode falar de desproporção, porque a distância é infinita.
Entretanto, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade assumiu a natureza humana para nos salvar, manifestando por nós um amor extraordinário, fora de toda medida. 

DE UMA “LOUCURA” DE AMOR NASCE A SANTA IGREJA

No alto do Calvário, a bondade e a misericórdia do Verbo Encarnado pelos pecadores são levadas, por assim dizer, até à loucura (cf. I Cor 1, 18). E São Pedro nos lembra: “Cristo morreu, uma vez por todas, por causa dos pecados, o justo pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Sofreu a morte na sua existência humana, mas recebeu nova vida pelo Espírito.” (I Pd 3, 18)
Na Aliança estabelecida por Deus com a humanidade após o Dilúvio, Ele
prometeu não mais castigar a Terra por meio das águas (Gn 9, 11). Ora, bem se poderia dizer que a história da Salvação culmina num “dilúvio de Sangue”, de acordo com a expressiva fórmula de São Luís Maria Grignion de Montfort. ⁽⁴⁾
Porque — se não bastassem a flagelação, a coroação de espinhos e todos os sofrimentos ao caminho do Calvário — Ele permitiu que, na Cruz, uma lança Lhe perfurasse o peito sagrado.
Verteram-se nessa hora as últimas gotas de sangue e linfa que ainda restavam no seu Sacratíssimo Coração. Nasceu assim o Corpo Místico do qual Cristo é a Cabeça. “No Calvário, Ele completa sua imolação e faz nascer, em meio às mais espantosas torturas físicas e morais, a Igreja que Ele havia tão laboriosamente preparado e instituído. […] É, pois, a Igreja que, segundo a doutrina dos Padres, sai do Lado aberto do Salvador e, por assim dizer, é dada à luz por Ele”. ⁽⁵⁾ 
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⁽¹⁾ SANTO AGOSTINHO. Enarrationes in Psalmos. Ps.134, c.10.
⁽²⁾ Cf. CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum, n.3.
⁽³⁾ Catecismo da Igreja Católica, 58.
⁽⁴⁾4 SÃO LUÍS GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge. 2. ed. Tours: Alfred Mame, 1931, p.58. Em português, no Brasil: Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, 43ª ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2014, p. 308 Paulo Eduardo Roque Cardoso
⁽⁵⁾ TANQUEREY, Adolphe. La vie de Jésus dans l’Église. Tournai: Desclée, 1933, p.59-61.
(Adaptado de “O inédito dos Evangelhos”, vol. III, Libreria Editrice Vaticana, 2013, p. 167-168. Foi também publicado na revista “Arautos do Evangelho”, nº 122, fevereiro de 2012, p. 10-12. Para acessar o exemplar do corrente mês clique aqui )
Ilustrações: Arautos do Evangelho, Gustavo Krajl, Pe. Timoty Ring, Wiki