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4 de jun. de 2016

A tentação da “limbolatria”

"Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: ‘Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo'. Jesus respondeu: ‘Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?'. E disse-lhes: ‘Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens'. E contou-lhes uma parábola: ‘A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. Então resolveu: ‘Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!'. Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?'. Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus'" (Lc 12, 13-21).
Diante dos prazeres, até legítimos, que a vida nesta Terra pode oferecer, facilmente o homem se esquece da eternidade para a qual foi criado.
Monsenhor Joao Cla Dias_EP.jpgMons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I - A vocação trocada por uma fechadura...
Conta-se que certa vez um monge acabou por abandonar sua vocação em troca de uma mera bagatela. Havia ele trabalhado durante anos como exímio ferreiro e, em determinado momento, sentira em seu interior um forte impulso para seguir as vias da vida contemplativa. Deixando tudo, dirigiu-se a um mosteiro, onde foi admitido.
Passado algum tempo, foi-lhe destinada uma cela cuja porta rangia e batia sem cessar dia e noite, pois não se fechava bem. Querendo resolver o problema, nosso monge pediu licença ao superior e fabricou uma magnífica fechadura. Além disso, aproveitou para consertar a própria porta, ajustando-a melhor ao marco da parede. Afinal, conseguiu transformá-la numa peça modelar para toda a comunidade.
Encantado com seu próprio labor, passeava pelos corredores do edifício, admirado por não achar nenhuma fechadura comparável à dele, tão perfeita e bem acabada. Entretanto, com o correr dos meses, foi criando dentro de si um apego excessivo pelo acessório, aparentemente inofensivo.

Certo dia ordenou o abade uma mudança de celas na comunidade. Acabrunhado pela perspectiva de ver-se obrigado a repetir o minucioso trabalho em seu novo destino, o monge-ferreiro pediu permissão para levar consigo a fechadura. Mas, por determinação do superior, ninguém dispunha de autorização para transladar alguma parte do mobiliário na mudança de uma cela para outra. Descontente com a deliberação do prior e não estando disposto a renunciar à sua excelente fechadura, o monge arrancou-a da porta e decidiu abandonar a vocação religiosa, recebida das mãos de Deus, portando consigo o objeto de seu apego e embrenhando-se nos caminhos do mundo...
O que está por detrás da história da fechadura desse monge? É o que nos ensina o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum.
II - O perigo da ganância
O episódio narrado neste Evangelho se passa quando Jesus e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém, cidade onde Ele iria consumar sua missão divina. Anteriormente, por duas vezes, já havia predito a Paixão (cf. Lc 9, 22.44). Contudo, os discípulos não entendiam o elevado significado de tal anúncio e ainda tinham a esperança de serem os primeiros no suposto Reino Messiânico a ser fundado por Cristo neste mundo (cf. Lc 9, 45-46). Para corrigir essa visualização humana, Ele os enviara em missão, dando-lhes poder para expulsar os demônios, e lhes ensinara o Pai Nosso, incitando-os à perseverança e confiança na oração (cf. Lc 10, 1.17; 11, 1-4). Foi em meio às atividades desse ministério tão sobrenatural que foi feito ao Mestre este singular pedido.
"Naquele tempo, 13 alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: ‘Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo'".
As palavras iniciais do trecho evangélico contemplado deixam-nos patente a inteira disposição de Nosso Senhor de atender todas as pessoas ao seu redor. Mantendo o livre acesso a Si, sem intermediário algum, encontrava-Se sempre pronto a responder às necessidades dos que d'Ele se aproximavam. Só este minúsculo pormenor já seria suficiente para encher-nos de confiança.
De fato, a cena narrada apresenta-nos o caso de uma pessoa que se dirigiu a Jesus para pedir ajuda. Trata-se, sem dúvida, de um irmão mais novo enfrentando dificuldades na partilha de uma herança que lhe cabia. Pela lei civil judaica, quando dois irmãos herdavam do pai um legado, este deveria ser dividido em três partes, ficando duas para o mais velho e tão somente uma para o outro (cf. Dt 21, 17).1 Dado o caráter ganancioso do ser humano, apesar da lei, esse preceito não deixava de motivar frequentes discussões no momento de sua aplicação. Era comum tais contendas terminarem diante de um juiz, de um rabino ou de outro árbitro apropriado. Segundo comenta Lagrange, "os rabinos haviam habituado os judeus a recorrerem a eles para fechar as questões que deviam mais ou menos ser resolvidas de acordo com os princípios do direito".2
Um defeito comum a todas as eras
O contendor do Evangelho, ao se aproximar de Nosso Senhor pedindo-Lhe a intervenção na divisão de seus bens de família, nem parece ter-se detido um pouco para refletir a respeito da grandeza do Mestre diante da qual se encontrava, considerando-O apenas como alguém com enorme popularidade, como um advogado seguro para a causa que anelava ganhar para si. Bem podemos imaginá- lo sofrendo a perda do progenitor já na idade madura. A juventude ficara para trás e ele desejava garantir o futuro, preocupação muitas vezes dominante na pessoa que avança em anos.3 Essa é a mentalidade dos que, em tal etapa da vida, perdem o senso da generosidade e a capacidade de compreender o caráter transitório das posses temporais. E o irmão mais novo do Evangelho está com os olhos fixos em seu futuro, naquilo que poderíamos definir - apesar de paradoxal - como a perpetuidade desta Terra.
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Moedas de ouro da época do Império 
 Museu de Valores do Banco Central do Brasil, Brasília
Desde o primeiro momento da saída de Adão e Eva do Paraíso Terrestre, a natureza humana passou a procurar o fruto da árvore da vida no exílio, na pátria terrena. Também em nossos dias, e com mais intensidade do que em épocas anteriores, existe um forte anseio de encontrar, através da medicina, uma "ampola da vida eterna", para tentar-se viver em um limbo permanente neste mundo. Essa atitude é muito comum e - segundo expressão usada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira - poder-se-ia denominar "limbolatria",4 termo que bem designa a posição dos adoradores de uma existência feliz em um limbo sem fim, numa contínua fruição de prazeres aqui neste mundo, esquecendo-se da verdadeira eternidade e do sobrenatural. Diante de tal concepção da vida, involucrada no pedido relatado no Evangelho, vejamos qual foi a resposta do Divino Redentor.
A missão de Nosso Senhor não era temporal
14 "Jesus respondeu: ‘Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?'".
Não consta haver no Evangelho nenhuma negação clara e explícita de Jesus a qualquer pedido, sobretudo se feito com sincera humildade de coração. No entanto, no caso desse homem, Ele recusa pronunciar-se sobre o assunto, por não ser essa sua missão. Competia-a, sim, aos juízes e rabinos, os quais tinham por direito tal responsabilidade. Segundo comenta Santo Ambrósio, "aquele que tinha descido por razões divinas, com toda a justiça rejeita as terrenas, e não se digna fazer-se juiz de pleitos nem repartidor de heranças terrenas, pois a Ele cabia julgar e decidir sobre os méritos dos vivos e dos mortos".5
Esses primeiros versículos são suficientes para deles tirarmos uma bela lição. A reação de Cristo nos mostra que quando alguém deseja um bem apenas para si, Deus se afasta. Zeloso, porém, pela eterna salvação de todos, quis apresentar àquele homem um novo ensinamento: o perigo de se deixar envolver de modo desequilibrado pelas questões de uma herança familiar. "Pedia o demandante a metade da herança" - afirma Santo Agostinho -, "pedia a metade de uma herança da Terra, e o Senhor lha ofereceu toda inteira no Céu: dava-lhe mais do que pedia".6 Isso acontecera pelo fato de estar aquele homem voltado para os bens visíveis com uma volúpia incomum, querendo tê-los, de qualquer forma, em suas mãos.
O que é a ganância?
15 "E disse-lhes: ‘Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens'".
Em primeiro lugar, é surpreendente ver Nosso Senhor fazendo uso da palavra atenção, para mostrar a importância capital da frase que ia proclamar. Ora, nesse versículo, devemos levar em conta que quando Jesus fala em "todo tipo de ganância" está querendo dizer que não devemos estar fixados desequilibradamente na questão do dinheiro. Mas não só. Com efeito, se dissesse somente "com a ganância", poderia significar tão só o dinheiro. Havendo dito "contra todo tipo de ganância", poderia ou não estar se referindo a ele, abarcando, portanto, outros bens materiais.
Se desejamos algo para nossa estabilidade ou bem pessoal, divorciado do amor a Deus e ambicionado com sofreguidão, isto se chama ganância! Ensina-nos o Doutor Angélico que o pecado da ganância se efetua "quando se almeja adquirir e ajuntar riquezas ultrapassando a devida moderação. Isto é próprio da avareza, a qual se define como sendo um desejo desmedido de possuir".7 Voltando, então, à história do infeliz monge-ferreiro, cabe perguntar: como é possível a vida de um homem se resumir no amor a uma fechadura?
Sejamos honestos e olhemos bem de frente o amplo campo de bens ao nosso redor. São João da Cruz os define com precisão: "entendemos por bens temporais riquezas, estados, ofícios e outras pretensões, e ainda filhos, parentes, casamento, etc.".8 Esses bens poderão consistir até mesmo em uma fechadura, um bichinho ou um objeto ao qual nos apegamos em excesso ou de modo desequilibrado, embora nos afaste de Deus.
No entanto, existem outras espécies de ganância como a do sentimentalismo e do romantismo, que nos obrigam a pôr Deus de lado para adorarmos o que é meramente humano. Quando alguém entrega seu coração à ganância dessa consideração e adoração dos outros - e esta é a essência do romantismo -, sempre quererá mais, vivendo em contínua inquietação. Ainda outro tipo de ganância é a vaidade, que leva ao desejo de chamar a atenção sobre si, seja pela beleza física, causando cuidado excessivo da própria aparência, seja por achar-se possuidor de uma grande inteligência ou dotado de outras qualidades. Ganância podemos ter inclusive em relação à saúde, tomando cuidados desproporcionais
e exclusivos em relação ao corpo e ao tratamento das doenças.
O apego pode se concentrar em poucos bens
Nosso Senhor fala em "abundância de bens". Todavia, é preciso ter presente que se nos encontramos em uma situação de escassez material, de dinheiro ou de bens de outra índole, isto não significaria estarmos livres do risco de apego a alguma coisa, como mostra o conto sobre o monge e a fechadura.
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Campos de trigo prontos para a colheita (Paraguai)
Nesse sentido, continuando sua análise, São João da Cruz comenta como, de fato, é terrível a afeição desregrada à abastança material, mas explica que se uma pessoa tem muitos bens, o apreço dela se dividirá por todos eles. Será o caso, por exemplo, de um possuidor de mil moedas de ouro. Se vier a perder uma só, ficando com novecentos e noventa e nove, o abalo não será tão grande. Porém, se perder novecentos e noventa e nove, todo o seu cuidado pelas mil moedas se concentrará na que lhe restou. Dessa forma, quem tem poucos bens pode lhes ter um apego tão intenso como o de um nababo por toda a sua fortuna, esquecendo-se, por causa disso, de Deus.
É indispensável, contudo, ressaltar um matiz importante. Jesus não está condenando, nesta parábola, a posse de bens, nem o princípio de propriedade, mas sim a ganância, ou seja, o desregramento na consideração dos bens temporais. 9
Um homem abençoado por Deus
16 "E contou-lhes uma parábola: ‘A terra de um homem rico deu uma grande colheita'".
O Divino Mestre frisa, já no princípio, a fortuna desse homem da parábola. Era rico, bem estabelecido e atendido com largueza em todas as suas necessidades. De fato, a pecuária e a agricultura eram as principais fontes de riqueza na Palestina daquele tempo. E ele estava, pois, lucrando, porque a generosidade de Deus lhe havia proporcionado a alegria de viver na abundância. Tanto tinha sido favorecido, que sua terra lhe dera uma grande colheita e, segundo podemos supor pela continuação da narrativa, com um resultado muito superior ao normal.
Ora, essa terra, a quem pertence? Sem dúvida é propriedade do agricultor, mas quem a criou? Quem a fez produzir frutos? É certo que foi a semente, entretanto... quem engendrou a semente? E se formos mais adiante, chegaremos à conclusão de que, no fundo, tudo é de Deus e só a Ele pertence! "De Deus procedem todos esses benefícios, a boa terra, a boa temperatura do céu, a abundância de sementes, a ajuda dos bois  e de tudo o que a agricultura necessita para produzir com abundância. E o que descobrimos nesse homem?". 10 Descobrimos que, diante de tal bondade da Providência Divina, sua reação não foi de reciprocidade.
Egoísmo e ganância sempre vão de mãos dadas
17 "Ele pensava consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. 18 Então resolveu: ‘Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. 19 Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!'".
A atitude inicial do proprietário é a daquele que, de repente, se depara com uma situação de fartura inesperada. "Que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita!". Lamentável foi a intenção, cheia de egoísmo, subjacente a este seu primeiro pensamento. Ao encontrar os campos floridos e prontos para deles tirar o rendimento de uma safra como jamais lograra imaginar, o homem sentiu efervescer em si o elixir da "limbolatria", isto é, o desejo de permanecer nesta Terra por toda a eternidade, sem infortúnios, como demonstram as palavras do versículo seguinte.
Deus desapareceu de seus planos, e quando isso acontece, entra o desastre. Como efeito, quando O retiramos do centro de nossas preocupações, nossa própria pessoa assume com rapidez o papel principal de nossa vida, pois para nós só existem dois amores: ou amamos a Deus até o esquecimento de nós mesmos, ou amamos a nós mesmos até o esquecimento de Deus.11
O personagem da parábola quer guardar o produto da boa colheita de modo exclusivo para sua satisfação. Conforme advertia Nosso Senhor pouco antes, ele é ganancioso e avarento; deseja tudo para si e só para si! Partindo de um princípio errado - o da egolatria -, nem sequer se lembra de fazer algum bem aos outros. Havendo recebido com copiosidade das mãos do Criador aquela colheita, e numa quantidade tão superior à esperada, de forma a nem ter onde armazená-la, ele deveria, segundo o desejo divino, utilizá-la também para o bem do próximo. Mas não lhe passara pela cabeça semelhante possibilidade! Se uma alma não tem a Deus como centro de suas cogitações, entra-lhe uma sofreguidão própria ao apego e, com ela, a perturbação. "Non in commotione Dominus - o Senhor não está na agitação" (I Re 19, 11). O espírito de ganância faz-nos perder a paz.12
Do mesmo modo como o já comentado monge-ferreiro não se preocupara em fazer novas fechaduras para todas as celas do mosteiro - embora fosse notável na profissão e tivesse sobrada habilidade para fazê-las -, aquele proprietário da parábola pretende construir os celeiros pensando em uma estabilidade baseada no mero gozo da vida pessoal. Em ambos sobressai uma profunda atitude egoísta.
Por outro lado, o Mestre não afirma haver uma intenção explícita de pecado em tudo isso. No entanto, ao pôr na boca daquele agricultor as palavras "descansa, come, bebe e aproveita...", aponta para um esquecimento do Primeiro Mandamento da Lei de Deus: "Amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas". Quem causara aquela situação de fartura fora agora posto de lado e não mais lembrado.
É por esse motivo que tal proprietário nem acha suficiente o considerável sustento reservado nos celeiros já existentes. No ano seguinte e nos próximos, iria colher de novo, quiçá ainda mais. Contudo, a avareza e o desejo de fruir tornavam-no cego. Este é o pensamento de todos quantos são dominados pela ganância. Nunca se satisfazem com os dons recebidos das mãos de Deus, ansiando por algo a mais. "A razão pela qual a cobiça nunca se sacia é que o coração do homem está feito para receber a Deus. [...] Assim sendo, não pode enchê-lo aquilo que é menos que Deus".13 Essa insatisfação traz um desequilíbrio emocional, traduzindo-se seus frutos na falta de virtude, devido ao desejo desordenado de querer cada vez mais. É a ganância qualificada por São Bernardo de "mal sutil, secreta peçonha, peste oculta, artífice da dor, mãe da hipocrisia, pai da inveja, origem dos vícios, semente de excessos, [...] traça da santidade que torna cegos os corações, converte em doenças os próprios remédios e em novos achaques a medicina".14
Ai de quem erige sua vida - espiritual ou temporal - só para si mesmo! Mais cedo ou mais tarde ouvirá a mesma advertência saída dos lábios de Nosso Senhor ao homem desta parábola.
No fim da vida, de nada nos servirá a ganância
20 "Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste?'. 21 Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus".
Continuava a acumular trigo e bens materiais, pretendendo construir um novo celeiro seguro, pois fizera da vida no tempo seu último fim, julgando prolongá-la eternamente. Sua loucura consistiu em um ato de desamor em relação ao eterno. Esse pobre coitado talvez até tenha visto a demolição da antiga despensa. Sem embargo, nem sequer pôde ver os fundamentos da nova construção.
Quem não cumpre o Primeiro Mandamento da Lei de Deus encontra-se no caso desse infeliz. Tal é a atitude de muitas pessoas, as quais, "obscurecidas com a cobiça, nas coisas espirituais servem o dinheiro e não a Deus, e movem-se pelo dinheiro e não por Deus, pondo à frente o preço e não o divino valor e prêmio, fazendo de muitos modos seu principal deus e fim o dinheiro, antepondo-o ao último fim que é Deus".15 Esquecem-se das duas vidas presentes dentro de si: a humana e a divina, e cuidam com todo o zelo da primeira, deixando de cuidar da última, que é o estado de graça.
Ora, quem de nós não sofreu a tentação de acumular outros tipos de bens, apesar de eles nos afastarem de Deus e da eternidade, esquecendo a breve duração da nossa vida? Quantos e inúmeros casos há, na História, de pessoas cuja vida foi arrancada precisamente quando passavam pelo auge de uma realização terrena! Com efeito, afirma com severidade São João da Cruz: "todas as vezes que gozamos de maneira vã, Deus está nos olhando, traçando algum castigo e trago amargo, segundo o merecido".16 Não sejamos loucos! Quem pode assegurar o dia e a hora da própria morte, se até os médicos são incapazes de determiná-las com exatidão? Quem pode garantir a duração de sua vida até o fim da noite de hoje? Quem pode certificar-se de que continuará existindo amanhã? Para morrer, basta uma única condição: estar vivo!
Portanto, é mil vezes melhor estar, a todo instante, com a principal atenção posta no que é eterno. Depois da morte viveremos para sempre e, em um determinado momento, recuperaremos nossos corpos, em estado de glória ou de horror, dependendo de nossas obras. Se formos para o Céu receberemos a glória, mas se formos para o inferno será o perpétuo sofrimento.
Valerá a pena, pois, ficar perturbado, vivendo na aflição das coisas concretas, esquecendo-se das eternas? Ao proceder desse modo, por mais que possuamos incontáveis colheitas, desejemos construir inúmeros celeiros ou tenhamos propriedades sem fim; ou, em situação oposta, ainda que sejamos pobres, sentados à beira de um caminho pedindo esmola, o resultado será o mesmo: ficaremos amargurados, como o triste homem da parábola, dispostos a com ele construir um celeiro para esta Terra e não para a eternidade.
A legitimidade da reserva
Entretanto, uma pergunta pode surgir em nosso interior: como agir em relação às incertezas da vida presente? É legítimo fazer reservas? Como apaziguar as lícitas preocupações humanas com a estabilidade material? Na verdade, quem não examinasse com esmero o texto evangélico poderia ficar com uma impressão errada, imaginando que está se reprovando o direito de possuir, pois o homem da parábola é tido como louco pelo próprio Jesus. Estaria Deus condenando a aspiração a um direito, posta por Ele mesmo na alma humana17 - o direito de propriedade -, dando a ideia de que é pecado desejar ou possuir bens? Qual foi a loucura do homem? Teria Cristo condenado o ato de fazer reserva, pelo simples fato do agricultor, havendo reunido uma enorme colheita, muito acima de suas expectativas, ter querido levantar um celeiro capaz de receber grandes quantidades até o fim da vida? Se assim fosse, toda casa com despensa estaria condenada, porque não seria permitido fazer provisões, de acordo com este Evangelho...
Infelizmente não é raro ouvirmos argumentos absurdos contra o direito de propriedade. Ora, ele está presente nessa aspiração posta por Deus no coração humano. E é a prática de tal direto que nos permite conservar os meios para garantir a subsistência e atender as necessidades pessoais e familiares ou, até mesmo, para uma digna representação social. Mas, antes de tudo, é preciso ser rico perante Deus. E essa riqueza se conquista tendo-se a primeira atenção voltada para os bens eternos. Dessa forma, se o amor a Deus estiver presente e o egoísmo posto de lado, até o fazer reserva e o entesourar bens será legítimo.
Paulo Eduardo Roque Cardoso.jpg
Pôr do Sol na casa Lumen Coeli, dos Arautos do Evangelho - Mairiporã (SP)
Porém, o amor a Deus exige um desdobramento de amor ao próximo. É preciso, então, receber e economizar para sempre distribuir, sem guardar com exclusividade para si. Esta regra estende-se não só ao dinheiro e aos bens puramente materiais, como também a todo e qualquer benefício ou qualidade dada por Deus. Poder-se-ia, do mesmo modo, aplicar a condenação do Evangelho a quem estuda apenas com o intuito de se tornar um gênio e não para transmitir seus conhecimentos aos outros; quem reza por si e nunca pelos demais; quem se relaciona com seus semelhantes com intuito de satisfazer o desejo de louvores e estima pessoal, e não de fazer-lhes o bem, em função da salvação eterna. Tais desvarios tornam os atos de uma pessoa maléficos e marcados com o carimbo inconfundível do egoísmo.
III - Não tirar os olhos da eternidade
E necessário, pois, termos presente quão rápido passamos por esta Terra. Nossa atenção não pode fixar-se só neste mundo e esquecer o outro. Quantas vezes, ao longo dos séculos, verificamos que, quando uma nação ou uma área de civilização decide voltar-se para Deus, abrindo-se para a perspectiva da eternidade, tudo quanto é bom floresce!
Por outro lado, quando os homens excluem Deus do centro de suas vidas e Lhe roubam o lugar a Ele reservado, toda espécie de desastres e castigos desabam em cima deles. Encontramo-nos, atualmente, em uma era de invenções e de magníficas descobertas científicas, as quais eram impensáveis em tempos idos. Ora, essas maravilhas acarretam para os homens um novo e grave problema, pois, diante delas, muitos podem ficar tão obcecados que se esquecem de Deus...
Em nossos dias, com mais ímpeto que antes, a imoralidade parece querer destruir de modo definitivo a moralidade, conforme indica a velocidade de degradação das modas, dos costumes, da família. Os desregramentos morais vão se generalizando de tal maneira que, se fosse oferecido a pessoas com expectativa de morte iminente um remédio para prolongar a vida um pouco mais, exigindo-lhes, porém, a renúncia à impureza, sem dúvida alguma, boa parte delas preferiria morrer, antes de perder a possibilidade de cometer esse gênero de pecado. Quem assim procede tem, no fundo, um espírito no qual impera uma deliberada desobediência aos Dez Mandamentos, pois seus olhos estão postos nas coisas daqui de baixo e não nas do alto. Com eles se passará o que expressa também a primeira leitura de hoje, do Eclesiastes: "Um homem que trabalhou com inteligência, competência e sucesso vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou, também isto é vaidade" (Ecl 2, 21).
O sentido etimológico da palavra vaidade é vazio. Quem vive buscando ganâncias, imaginando com elas preencher a própria alma, corre atrás de um vazio.
Quando fazemos uma viagem definitiva para outro país, temos a possibilidade de levar conosco todos os nossos pertences. Contudo, quando saímos deste mundo - passando pelo Juízo - rumo à eternidade, nada podemos levar, nem a própria roupa, pois esta fica na sepultura, com o corpo, e torna-se alimento dos vermes. Então, melhor será aplicar o capital no tesouro espiritual, para chegarmos ao outro lado muito mais afortunados. É o conselho que hoje nos é dado: não fixarmos nossa atenção e preocupações nas coisas concretas desta Terra, mas sim nas da eternidade, o que se obtém aceitando a admoestação de São Paulo aos Colossenses, na segunda leitura da Liturgia deste domingo: "Fazer morrer em vós aquilo que pertence à Terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos, cobiça" (Col 3, 5).
Em suma, o problema não está em ter ou não ter, mas em ser rico diante de Deus. E para isso é preciso não ser romântico, não ser vaidoso, não querer o elogio dos outros, não buscar o dinheiro com sofreguidão, não ser orgulhoso. Ser rico diante de Deus é, na verdade, ser despretensioso, ser abnegado. Ser rico diante de Deus é ter muita fé. Esta é a riqueza para a qual Jesus nos convida.
Para atingir tal meta, não existe outro caminho senão o da vida de oração, onde encontraremos as graças necessárias para chegarmos felizes à eternidade. Praticar a virtude, procurando ser bom com os outros e querendo o nosso autêntico bem pessoal, eis a preparação para essa viagem sem retorno, viagem que dispensa passaporte, carteira de identidade, cartão de crédito e até visto de entrada. A entrada vai depender, isto sim, de uma vida agradável a Deus e inteiramente fiel à sua Lei. (Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2013, n. 140, p. 10 à 17)

28 de fev. de 2016

Referências bíblicas respectivas aos sacramentos


O Batismo 
Sua instituição e preceito estão positivamente marcados nos seguintes textos: "Em verdade vos digo, disse Jesus a Nicodemos, quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus" (Jo 3, 5). "Ide, ensinai todas as gentes, disse Jesus a seus discípulos, batizando-as, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). "O que crer e for batizado, será salvo", (Mc 16, 61). "Recebe o batismo e lava os teus pecados", disse Ananias a Saulo (At 22, 16). Os Apóstolos administravam o batismo a todos os que desejavam alistar-se na religião nova. Três mil pessoas receberam o batismo das mãos de S. Pedro, no dia de pentecostes (At 2, 38-41).

A Crisma ou Confirmação
Os atos dos apóstolos provam que o seu rito exterior consiste na imposição das mãos, diferente do batismo que utiliza a água. Os apóstolos Pedro e João, enviados a Samaria, "punham as mãos sobre os que tinham sido batizados", e recebiam estes o Espírito Santo (At 8, 12-17). Do mesmo modo, S. Paulo, vindo a Éfeso, batizou, em nome de Jesus Cristo, discípulos de João e a "eles impôs as mãos, para que o Espírito Santo baixasse sobre eles" 
 (At 19, 1-6). Para que S. Paulo imporia as mãos sobre quem já era batizado se a Crisma não fosse um sacramento que confirmasse o Batismo, completando os dons do Espírito Santo? Segundo estes textos, compreende-se claramente que Pedro e João de um lado, e Paulo de outro, deram o Espírito Santo, pela imposição das mãos. Ora, uma tal prática não seria cabível, se eles o fizessem fora da vontade e das prescrições do Mestre. A Crisma é, pois, um sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo. 

A Eucaristia
A palavra "Eucaristia" provém de duas palavras gregas "eu-cháris": "ação de graça", e designa a presença real e substancial de Jesus Cristo sob as aparências de pão e vinho.

Essa presença não foi contestada nem mesmo por Lutero. Em carta a seu amigo Argentino (De euch. dist. I, art.) falando sobre o texto evangélico "Isto é o meu corpo", ele diz: "Eu quereria que alguém fosse assaz hábil para persuadir-me de que na Eucaristia não se contém senão pão e vinho: esse me prestaria um grande serviço. Eu tenho trabalhado nessa questão a suar; porém confesso que estou encadeado, e não vejo nenhum meio de sair daí. O texto do Evangelho é claro demais". 

Eis, em S. João, os termos de que Jesus Cristo se serviu, falando a primeira vez deste grande sacramento: "Eu sou o pão da vida; vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo, que desci do céu. Se alguém comer deste pão, viverá eternamente, e o pão que eu darei é a minha carne, para a vida do mundo" (Jo 6, 48-52).

Que clareza nessas palavras! Que quer dizer isso: "Eu sou o pão vivo - o pão que eu darei é a minha carne". É ou não é a carne de Cristo? É ou não é Cristo que será o pão que deve ser comido? Será que Deus não saberia se expressar direito se desejasse fazer uma simples alegoria?

E não é só isso! Nosso Senhor continua, cada vez mais positivo e mais claro: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. O que comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna. Porque a minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come a minha carne e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele. O que me come... viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu... O que come este pão, viverá eternamente!" (Jo 6, 54 - 59).

Eis um trecho claríssimo, que não deixa margem à dúvidas. Nosso Senhor afirma categoricamente: "... minha carne é verdadeiramente comida". É impossível negar algo tão claro: a carne de Cristo, dada aos homens para remissão dos pecados, é para ser comida; e quem comer desta carne "viverá eternamente".

Cristo afirma, repete, reafirma, e explica que o pão que ele vai dar é o "seu próprio corpo" - que seu corpo é uma "comida" - que seu sangue é uma "bebida" - que é um pão celeste que dá a vida eterna.

Ao negar a presença eucarística, se nega as palavras de Cristo.

Cristo diz: "Este é o meu corpo".

Cristo ajunta: "Minha carne é verdadeiramente comida".

Cristo completa: "O que me come... viverá por mim.".

Cristo repete: "O que come a minha carne, fica em mim".

A posição daqueles que rejeitam as verdades dos sacramentos, é igual a posição que tomaram os fariseus: "Como pode este dar-nos a sua carne a comer?" (Jo 6, 53). Retiram-se murmurando: "É duro demais, quem pode ouvir uma tal linguagem!" (Jo 6, 67).

Que fará Jesus, dissipa o equívoco e explica que é simbólico o que Ele acaba de dizer, para que não se perdessem os que se retiravam?

Não! Vira-se para seus Apóstolos e, num tom que não admite réplica, pergunta: "E vós também quereis abandonar-me?" (Jo 6, 68). É como se afirmasse: quem não desejar aceitar a verdade, que retire-se com os outros! A verdade é essa e não muda. Paulo Eduardo Roque Cardoso

E S. Pedro lança este sublime brado de fé: "Senhor, para quem havemos de ir? Tu tens as palavras de vida eterna. E nós cremos e conhecemos que tu és Cristo, o Filho de Deus" (Jo 6, 67-70).

É a cena da promessa da eucaristia, que ia sendo preparada por Nosso Senhor em seus Apóstolos, que acreditavam e amavam mesmo sem entender!

Aos que não acreditam nessa graça, cabe uma pergunta muito objetiva: Seria possível Cristo ser tão solene e tão claro, utilizando palavras tão majestosas e escandalizando a tantos incrédulos, apenas para prometer-nos um "pedaço de pão", que devemos comer em sua lembrança?

Seria impossível.
Agora, examinemos a instituição da Eucaristia.

O dia escolhido é a véspera da morte do Messias. Em meio das ternuras lacerantes do adeus, neste momento onde, deixando aqueles que se amam, fala-se com mais coração e com mais firmeza, porque, estando para morrer, não se estará mais para explicar ou interpretar as próprias palavras. Neste momento, pois, num festim preparado com solenidade (Lc 22, 12), impacientemente desejado (Lc 22, 15), eis que se passa:

" Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. " (Lc 22, 19).

" Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. " (Mt 26, 27-28)

Que magnífica simplicidade e previsão nos termos!

O original grego é mais forte ainda: "Isto é o meu corpo, meu próprio corpo, o mesmo que é dado por vós - Isto é meu sangue, meu próprio sangue da nova aliança, o sangue derramado por vós em remissão dos pecados".

E no texto siríaco, tão antigo como o grego, feito no tempo dos Apóstolos, diz-se: O que se nos dá "é o próprio corpo de Jesus, seu próprio sangue".

Não há outro sentido possível nesses textos. É a presença real afirmada, inequivocamente, pelo Messias, Redentor nosso, que derramou seu sangue na Cruz por nossos pecados.

Que precisão nas palavras e que autoridade! Quanto poder nestas palavras: "Lázaro, sai do sepulcro!" E Lázaro sai imediatamente. "Mulher, estás curada!" E ela fica curada. "Isso é meu corpo!" E esse é o corpo do Cristo.

E S. Paulo, na sua epístola aos Coríntios (11, 23 - 30): "Eu recebi do Senhor... que, na noite em que foi traído, tomou o pão. E tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei: isto é o meu corpo que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Esta é a nova aliança no meu sangue, fazei isto, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, qualquer que comer este pão ou beber o cálice indignamente, será culpado do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo... Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para si mesmo sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes e muitos que dormem (o sono da morte)" (I Cor 11, 23 - 30).

S. Paulo diz, com esta lógica que lhe é peculiar: "Quem comer este pão ... indignamente, será culpado do corpo do Senhor" (1 Cor 11, 27) - e ainda no mesmo sentido: "O que come indignamente, come a sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor" (1 Cor 11, 29).

Ou seja, S. Paulo afirma que, comungando indignamente, somos culpados do corpo de Jesus Cristo. Ora, como é que alguém pode ser culpado do corpo de Cristo se este corpo não estiver no pão que come?

Comer um pedaço de trigo, sem devoção e com a alma manchada, pode ser um crime, o qual a vítima "come sua própria condenação"?

Aliás, o que S. Paulo afirma acaba condenando o protestantismo: É culpado do corpo do Senhor e come sua própria condenação, quem não discerne o corpo de Cristo de um vulgar pedaço de pão, e come este pão indignamente.

Eis a verdade irrefutável da Eucaristia.

Confissão
A confissão consiste em um sacramento instituído por Jesus Cristo no qual o sacerdote perdoa os pecados cometidos depois do batismo.

Sobre o sacramento da Confissão, devemos analisar o seguinte:

Os homens pecam

É necessário obter o perdão desses pecados

Nosso Senhor instituiu um sacramento para a remissão dos pecados

A confissão deve ser feita a um Padre.

Diferença entre "atrição" e "contrição"

O que é necessário para ser eficaz uma confissão?

Vamos às respostas:

1) Os homens pecam:

Diz a Sagrada Escritura: "O justo cai sete vezes por dia" (Prov 24, 16). E se o próprio justo cai sete vezes, que será do pobre que não é justo?

"Não há homem que não peque" (Ecl 7, 21).

"Aquele que diz que não tem pecado faz Deus mentiroso" (1 Jo 1, 10).

O "Livre Arbítrio" humano permite ao homem realizar atos contrários ao seu criador.

2) É necessário obter o perdão desses pecados:

"Nesta porta do Senhor, só o justo pode entrar" (Sl 117, 20).

"Não sabeis que os pecadores não possuirão o reino de Deus?" (1 Cor 6, 9).

Portanto, para entrar no Reino de Deus, é necessário obter o perdão dos pecados.

3) Nosso Senhor instituiu um sacramento:

Qual é o meio que existe para alcançar o perdão dos pecados?

Nos diz S. João: "Se confessarmos os nossos pecados, diz o Apóstolos, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e purificar-nos de toda injustiça" (1 Jo 1, 8). 
 
Todavia, "aquele que esconde os seus crimes não será purificado; aquele, ao contrário, que se confessar e deixar seus crimes, alcançará a misericórdia" (Prov. 38, 13). "Não vos demoreis no erro dos ímpios, mas confessai-vos antes de morrer" (Ecl 17, 26).

A confissão não é nova, já existia no Antigo Testamento, mas foi elevada à dignidade de Sacramento por Nosso Senhor, que conhecia a fraqueza humana e desejava salvar seus filhos.

No dia da ressurreição, como para significar que a confissão é uma espécie de ressurreição espiritual do pecador, "apareceu no meio dos apóstolos... e, mostrando-lhes as mãos e seu lado... lhes disse: A paz esteja convosco. Assim como meu Pai me enviou, eu vos envio a vós. ... soprando sobre eles: recebei o Espírito Santo... Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 21, 21 - 23). O mesmo texto encontra-se em S. Mateus (Mt 28, 20).

Como tudo é claro! Nosso Senhor tinha o poder de perdoar os pecados, como se desprende de S. Mateus (Mt 9, 2-7). Ele transmite esse poder aos seus Apóstolos dizendo: "assim como o Pai me enviou", isto é, com o poder de perdoar os pecados, "assim eu vos envio a vós", ou seja, dotados do mesmo poder. E para dissipar qualquer dúvida, continua: "soprando sobre eles: Recebei o Espírito Santo..." como se dissesse: Recebei um poder divino... só Deus pode perdoar pecados: pois bem... "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 21, 21 - 23).

A conclusão é rigorosa: Cristo podia perdoar os pecados. Ele comunicou este poder aos Apóstolos e por eles aos sucessores dos Apóstolos: pois a Igreja é uma sociedade "que deve durar até o fim do mundo" (Mt 28, 20).

O livro dos Atos dos Apóstolos refere que quem se convertia "vinha fazer a confissão das suas culpas" (At 19, 18).

Aqui nós começamos a refutar uma argumentação dos protestantes: cada um se confessa diretamente com Deus.

4) A confissão deve ser feita a um padre:

Pelo próprio livro dos Atos dos Apóstolos, quando se afirma que o convertido "vinha fazer a confissão", fica claro que era necessário um deslocamento da pessoa para realizar a confissão junto aos Apóstolos, pois o verbo "vir" é usado por quem recebe a visita do penitente.

Se a confissão fosse direta com Deus, bastaria pedir perdão de seus pecados, sem precisar 'ir' até a Igreja.

Aliás, S. Tiago é explícito a esse respeito: "confessai os vossos pecados uns aos outros, diz ele, e orai uns pelos outros, a fim de que sejais salvos" (Tgo 5, 16). Isto é, confessai vossos pecados a um homem, que tenha recebido o poder de perdoá-los.

De qualquer forma, a instituição do Sacramento deixa claro o poder que Nosso Senhor conferiu à sua Igreja.

Sem a vontade de se confessar com um outro homem, o pecador demonstra que seu arrependimento não é profundo, pois ele não se envergonha mais de ofender a Deus do que de expor sua honra. No fundo, ama a si mesmo mais do que a Deus e pode estar a cometer um outro pecado, ainda mais grave, contra o primeiro mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas.

Mas, em não existindo um Padre, como confessar-se? E como ficam os homens no Antigo Testamento?

5) Contrição e Atrição

A Contrição consiste em pedir o perdão de seus pecados por amor de Deus. A atrição, por sua vez, consiste em pedir o perdão dos pecados por temor do inferno.

A primeira, contrição (chamada de contrição perfeita), apaga os pecados da pessoa antes mesmo da confissão. Todavia, só é verdadeira se há a disposição de se confessar com um padre. Foi desta forma que se salvaram os justos do Antigo Testamento.

A atrição só é válida através do sacramento da confissão, o qual é eficaz mesmo se há apenas "medo do inferno".

Ninguém duvida de que o sincero arrependimento dos pecados, com firme propósito de não pecar mais, e satisfação feita a Deus e aos prejudicados, eram, no Antigo Testamento, condições necessárias e suficientes para obter o perdão de Deus. O mesmo vale ainda hoje para todos os que desconhecem Nosso Senhor Jesus Cristo e seu Evangelho (desde que sigam a Lei Natural) e para os que não têm como se confessar (desde que tenham um ato de contrição perfeita). Mas quem, em seu orgulho, não acredita nas palavras de Cristo Ressuscitado, com as quais ele instituiu o sacramento da penitência, e por isso não quer se confessar, não receberá o perdão, pois não ama à Deus verdadeiramente.

Cada pecado é um ato de orgulho e desobediência contra Deus. Por isso "Cristo se humilhou e tornou-se obediente até a morte, e morte na Cruz" (Flp 2, 8) para expiar o orgulho e a desobediência dos nossos pecados, e nos merecer o perdão. Por isso ele exige de nós este ato de humildade e de obediência, na Confissão sacramental, na qual confessamos os nossos pecados diante do seu representante, legitimamente ordenado. E, conforme a sua promessa: "Quem se humilha, será exaltado, e quem se exalta, será humilhado" (Lc 18, 14).

Alguns protestantes aliciam os católicos para sua seita com a promessa de que, depois do batismo (pela imersão), estariam livres de qualquer pecado e nem poderiam mais pecar! Conseqüentemente, concluem que não haveria necessidade de confissão. Apoiam esta afirmação nas palavras bíblicas de (1 Jo 3, 6 e 9). Todavia, basta confrontar essa passagem com outra, do próprio João Apóstolos (1 Jo 1, 8-10), para perceber que a conclusão é precipitada: "Se dissermos que não temos pecado algum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo, e nos perdoa os nossos pecados, e nos purifica de toda a iniqüidade. Se dissermos que não temos pecado, taxamo-Lo de mentiroso, e a sua palavra não está em nós".

Portanto, todos os homens necessitam de misericórdia divina; e os sinceros seguidores da Bíblia recebem-na, agradecidos, no sacramento da Confissão.

6) O que é necessário para ser eficaz uma confissão?

exame de consciência

ter arrependimento (atrição ou contrição)

propósito de não recair no pecado e de evitar as circunstâncias que o favoreçam

confessar-se sem omitir nada

cumprir a penitência estabelecida pelo confessor

A Unção dos Enfermos

É o quinto sacramento instituído por Jesus Cristo, sem que saibamos em que época o instituiu. A Sagrada Escritura, como para a Crisma, nos transmite apenas o rito exterior e o efeito produzido. O Evangelho diz que "à ordem do Senhor... os apóstolos expeliam muitos demônios e ungiam com óleo a muitos enfermos, e os curavam" (Mc 6, 13). Eis um fato, é a ordem do Senhor.

A instituição da extrema-unção decorre destas palavras de S. Tiago: "Está entre vós alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. E o Senhor o aliviará, e se estiver em algum pecado ser-lhe-á perdoado" (Tgo 5, 14-15).

Nunca o Apóstolo teria prometido tais efeitos a uma unção, na enfermidade, sem firmar-se na autoridade divina da instituição deste sacramento. A extrema-unção é, pois, verdadeiramente um sacramento.

A Ordem
A Ordem é o sacramento que dá o poder de desempenhar as funções eclesiásticas, e a graça de fazê-lo santamente. Em outros termos, é o sacramento que faz os sacerdotes, ou ministros de Deus. Muitos textos da Sagrada Escritura provam a existência do sacerdócio e indicam o rito de ordenação sacerdotal. Lemos de fato que Nosso Senhor fez uma seleção entre os discípulos: "Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi", diz Ele (Jo 15, 16). Aos discípulos eleitos, chamados apóstolos, o divino Mestre confia as quatro atribuições particulares do sacerdócio:

Oferecer o santo sacrifício: "Fazei isto em memória de mim" (Lc 22, 19). É a ordem de reproduzir o que ele tinha feito: mudar o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue divino.

Perdoar os pecados: Os pecados serão perdoados aos que vós os perdoardes (Jo 20, 23).

Pregar o Evangelho: Ide no mundo inteiro, pregando o Evangelho a todas as criaturas (Mc 16, 15).

Governar a Igreja: O Espírito Santo constituiu os bispos para governarem a Igreja de Deus (At 20, 28).

Eis os poderes dados por Nosso Senhor Jesus Cristo a seus ministros ou sacerdotes, representados pelos primeiros sacerdotes, que foram os apóstolos.

Quanto ao rito de ordenação, não é menos claramente indicado: Consiste ela na imposição das mãos. S. Paulo escreve: "Não desprezes a graça que há em ti e te foi dada por profecia pela imposição das mãos do presbitério" (1 Tim 4, 14). Chama-se presbitério a reunião dos bispos e padres que concorreram para a ordenação de Timóteo, de que S. Paulo foi o principal ministro, como se vê claramente na segunda epístola dirigida ao mesmo discípulo. "Por este motivo, diz ele, te admoesto que reanimes a graça de Deus, que recebestes pela imposição de minhas mãos" (2 Tim 1, 6).

O exemplo dos apóstolos nos mostra a transmissão dos poderes sacerdotais pela ordenação. E por onde Paulo e Barnabé passavam, "ordenavam sacerdotes para cada Igreja" (At 14, 22).

Tudo isso prova, claramente, que os apóstolos tinham recebido de Jesus a divina investidura de poderes, que iam assim distribuindo pela imposição das mãos; e esta investidura é o sacramento da Ordem.

O Matrimônio
É o último na série dos sacramentos. O casamento que era antes de Jesus Cristo mero contrato, é um verdadeiro sacramento da nova lei. Não sabemos exatamente o tempo nem o lugar em que Jesus Cristo instituiu este sacramento; pensam os teólogos que foi nas bodas de Caná. Outros pensam que foi na ocasião em que o Salvador restaurou a unidade e a indissolubilidade primitivas. Interrogado a respeito do divórcio, Cristo responde que não era lícito por nenhum motivo, que nem o direito de separar-se tem o homem e a mulher, exceto o caso de adultério (Mt 19, 3-9).

Outros, ainda, pensam que foi instituído depois da ressurreição, e promulgado por S. Paulo, na epístola aos efésios (5, 25-33).

Pouco importa o tempo e o lugar, o certo é que o matrimônio foi por Jesus elevado à dignidade de sacramento, como resulta positiva e irrefutavelmente da Sagrada Escritura: "Não separe o homem o que Deus uniu" (Mt 19, 6). Ou seja, Deus uniu os noivos!

Este mistério, ou sacramento, é grande em relação a Cristo e à Igreja, diz S. Paulo (Ef 5, 32). Isso é grande, em relação a Cristo, porque é instituição divina; grande em relação à Igreja, que deve mantê-lo na sua unidade e indissolubilidade.

O rito externo foi indicado por S. Paulo: é a mútua tradição e aceitação do direito sobre os corpos, em ordem aos fins do casamento, formando uma união santa, como é "santa a união do Cristo com a sua Igreja" (Ef 5, 25)

Pode aprofundar-se mais sobre o sacramento do matrimônio em: padremarciopinheiro.blogspot.com.br/2011/02/o-sacramento-do-matrimonio-dimensao.html

Fonte: http://www.catequisar.com.br/texto/materia/especial/sacramento/05.htm

30 de jan. de 2016

Cruso de Férias

Aproveitando o período de férias escolares, jovens provenientes de todo o Brasil e do exterior reuniram-se em Caieiras (SP), entre os dias 18 e 22 de janeiro, para um curso de formação. Através de palestras e encenações teatrais, o curso foi dividido em quatro temas: "Como aproveitar bem o tempo", "Confissão", "Amizades", "Eucaristia".
Todas as manhãs, o Curso de Férias iniciava com a Santa Missa.
Após a Santa Missa, todos se dirigiam ao auditório.
Auditório
 
Primeiro tema: "Como aproveitar bem o tempo".
Encenação teatral introduz o tema do dia e apresenta como o tempo não para!
Encenação teatral apresenta a história de um comandante do Ancien Régime, que confiava mais nas próprias forças do que em Deus.
Encenação teatral apresenta sobre o grave risco da negligência e a importância da constante vigilância.




Encenação teatral introduz o tema do dia, ao apresentar sobre os dons e frutos do Espírito Santo, obtidos com o sacramento da penitência.
Encenação teatral apresenta sobre a importância do conselho durante a confissão.
Encenação teatral oriental apresenta sobre a honra do estado de graça que devemos conservar, custe o que custar.
Pistas enigmáticas são retiradas do baú do tesouro (ao centro), a fim dos jovens decifrarem o tema do dia.
Encenação teatral apresenta sobre a "amizade" interesseira.
Encenação teatral apresenta a magnífica cena bíblica da amizade de Jonatas, filho de Saul, com Davi.

1 Samuel 18:

1 "Depois dessa conversa de Davi com Saul, surgiu tão grande amizade entre Jônatas e Davi que Jônatas tornou-se o seu melhor amigo."






Encenação teatral apresenta sobre as boas e más amizades e o respeito humano de ser bom.
Encenação teatral introduz o tema do dia ao apresentar cena de um concurso de pinturas de artistas famosos na Itália; as pinturas procuram expressar a grandeza e o poder de Deus. O quadro vencedor é o que representa a Santa Missa.

Encenação teatral apresenta a fé que devemos ter na Eucaristia.
Encenação teatral apresenta sobre a importância da devoção eucarística, especialmente nos últimos instantes da vida. A cena é de soldados da Primeira Guerra Mundial, que, a pedido do comandante, que está mal a morte, dá-lhes a comunhão.
Encenação teatral apresenta cenas orientais da Índia, nos tempos das primeiras missões portuguesas.